A pedra que um dia foi imponente e hoje jaz caída - talvez o elemento mais estranho de Stonehenge - percorreu uma distância enorme para ocupar um lugar de destaque nesse enigmático megálito antigo.
Pesquisas recentes indicam que a chamada Pedra do Altar foi levada da Escócia até o monumento localizado no sul da Inglaterra, num trajeto de mais de 750 quilômetros, antes de ser instalada no conjunto.
Ainda não se sabe como populações do Neolítico conseguiram transportar um bloco tão pesado por colinas e vales há cerca de 5.000 anos, mas a descoberta reforça a ideia de que esse marco arqueológico pode ter sido ainda mais significativo do que se imaginava.
"Essas descobertas são realmente notáveis - elas derrubam o que se acreditou ao longo do último século", afirma o geólogo Richard Bevins, da Aberystwyth University, no Reino Unido.
"Nós conseguimos determinar, por assim dizer, a idade e as impressões digitais químicas de talvez uma das pedras mais famosas do monumento antigo mundialmente conhecido."
Stonehenge, antigo e quase sobrenatural na paisagem verde britânica, salpicado de líquenes e disposto (em pé e também tombado) num arranjo silencioso e solene, intriga e fascina pessoas há séculos. Não há certeza sobre quem o construiu, nem sobre a sua finalidade. O que é possível fazer, porém, é examinar o que permanece - e isso inclui as próprias pedras.
As pedras de Stonehenge e o enigma da Pedra do Altar
Uma parte das rochas de Stonehenge é composta por bluestones ígneas; outras são de arenito sarsen. O anel interno de bluestones já foi associado a uma pedreira no País de Gales, a cerca de 230 quilômetros de distância. Já a Pedra do Altar, bem no centro, é uma laje de arenito com tonalidade verde-arroxeada cuja origem era bem mais difícil de rastrear.
Pedra do Altar (Pedra 80): posição, tamanho e possível função
A Pedra do Altar - também chamada de Pedra 80 - é particularmente incomum. Ela está rebaixada e nivelada com o solo, com outras duas pedras deitadas perpendicularmente sobre ela. Arqueólogos não conseguem afirmar se ela foi colocada dessa forma desde o início ou se, como as demais, já ficou erguida e depois tombou, sendo então empurrada para baixo, para dentro da terra. Caso tenha ficado de pé, seu peso é estimado em 6 toneladas. O comprimento é de cerca de 4,9 metros, algo relativamente compatível com as outras pedras do monumento.
A posição do bloco se alinha com precisão à direção do Sol nos solstícios, o que sugere relevância. O valor atribuído à pedra também parece estar ligado ao tipo de rocha de que foi talhada, tão diferente dos monólitos ao redor.
Pesquisadores já haviam feito análises químicas do arenito da Pedra do Altar para verificar se a sua “assinatura” poderia ser associada a fontes próximas. O resultado foi que o teor anormalmente alto de bário não correspondia a nenhum arenito conhecido na paisagem local.
Como a origem escocesa foi identificada
Diante disso, a equipe ampliou a busca para regiões mais distantes. Sob liderança do geólogo Anthony Clarke, da Curtin University, na Austrália, os cientistas realizaram uma análise detalhada dos grãos minerais presentes no arenito. Em especial, examinaram grãos de zircão, apatita e rutilo em duas amostras extraídas da pedra.
Assinatura química e datação isotópica
Com a datação isotópica desses minerais, foi possível montar um perfil de idades para o material. Alguns zircões, por exemplo, se formaram entre 4 e 2,5 bilhões de anos atrás, enquanto grãos mais jovens dataram de 1,6 a 1 bilhão de anos. Já a apatita e o rutilo, por sua vez, se formaram entre 470 e 458 milhões de anos.
Esse conjunto de idades descreveu um perfil que coincidiu de forma impressionante com depósitos sedimentares de old red sandstone em apenas um local, entre todos os depósitos de arenito avaliados no Reino Unido e na Irlanda.
"Isso fornece uma impressão digital química distinta, sugerindo que a pedra veio de rochas na Bacia Orcadiana, na Escócia, a pelo menos 750 quilômetros de Stonehenge", explica Clarke.
"Dada sua origem escocesa, as descobertas levantam perguntas fascinantes, considerando as limitações tecnológicas da era Neolítica, sobre como uma pedra tão maciça foi transportada por grandes distâncias por volta de 2600 a.C."
O que a longa distância sugere sobre o Neolítico
O modo exato de transporte ainda é desconhecido, mas o relevo ao longo de toda essa rota teria imposto obstáculos sucessivos. Isso aponta para um feito de grande engenhosidade e determinação.
A hipótese também sugere que as populações neolíticas que habitavam a região talvez dispusessem de alguma forma de transporte marítimo e que redes de troca relativamente sofisticadas possam ter existido. Mesmo que ainda sejam necessários mais estudos sobre as causas e os meios, o simples fato de a Pedra do Altar estar onde está continua sendo espantoso, sob qualquer perspectiva.
"A distância percorrida é impressionante para a época", diz o geoquímico Nick Pearce, da Aberystwyth University.
"Não há dúvida de que essa fonte escocesa indica um alto nível de organização social nas Ilhas Britânicas durante o período. Essas descobertas terão enormes implicações para entender comunidades no Neolítico, seus níveis de conectividade e seus sistemas de transporte.
"Espero que, agora, as pessoas passem a considerar a Pedra do Altar em um contexto um pouco diferente, em termos de como e quando ela chegou a Stonehenge, e de onde veio. Tenho certeza de que isso levará a novas reflexões sobre o desenvolvimento de Stonehenge e suas ligações com o restante da Grã-Bretanha neolítica."
A pesquisa foi publicada na Nature.
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