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Estudo da UCLA Health liga o clorpirifós à doença de Parkinson

Mulher cientista analisando imagem digital do cérebro com campo agrícola e trator ao fundo.

Um químico aplicado para proteger lavouras pode estar causando danos silenciosos ao cérebro humano ao longo do tempo. Pesquisadores da UCLA Health identificaram uma ligação forte entre a exposição prolongada a um pesticida chamado clorpirifós e a doença de Parkinson.

A doença de Parkinson afeta o movimento e pode provocar tremores, rigidez e lentidão para agir. No estudo, pessoas que moravam perto de áreas onde o clorpirifós era utilizado apresentaram um risco mais de 2,5 vezes maior de desenvolver Parkinson.

Para sustentar tanto o risco quanto o “porquê”, os cientistas reuniram dados de pessoas e experimentos de laboratório.

O que é a doença de Parkinson?

A doença de Parkinson é um distúrbio neurológico de progressão lenta. Ela compromete células específicas do cérebro responsáveis por produzir dopamina, substância essencial para o controlo dos movimentos.

À medida que essas células morrem, o corpo perde a capacidade de coordenar os movimentos de forma suave. Hoje, os pesquisadores entendem que a maioria dos casos não se explica apenas por genes: exposições ambientais também entram na equação.

Como o Parkinson costuma se desenvolver ao longo de décadas, identificar os fatores iniciais que dão origem ao processo é um desafio.

Clorpirifós: um pesticida usado no mundo todo

O clorpirifós é um composto utilizado para proteger plantações contra insetos. Ele faz parte do grupo dos pesticidas organofosforados, químicos que têm como alvo o sistema nervoso.

Nos insetos, o clorpirifós bloqueia uma enzima crucial para que os nervos transmitam sinais. Quando esse mecanismo é interrompido, o inseto perde o controlo do corpo e morre.

Em seres humanos, esse mesmo tipo de ação também pode ocorrer, embora em geral em níveis muito mais baixos.

Como acontece a exposição das pessoas

Por questões de segurança, os Estados Unidos proibiram em 2001 o uso de clorpirifós dentro de residências, especialmente para reduzir a exposição nociva em crianças.

Ainda assim, na agricultura ele continuou a ser usado por produtores para combater pragas em culturas como frutas e verduras.

Quando há pulverização nos campos, partículas muito pequenas podem dispersar-se pelo ar - um fenómeno conhecido como deriva de pesticidas. Quem mora ou trabalha próximo dessas áreas pode respirar essas partículas sem perceber.

Com o passar do tempo, a exposição repetida e em baixa dose pela respiração pode acumular-se, o que explica a preocupação dos cientistas com possíveis efeitos de longo prazo no cérebro.

Exposição prolongada aumenta o risco

A equipe da UCLA Health analisou dados do estudo Parkinson’s Environment and Genes. Esse levantamento reuniu 829 pessoas com Parkinson e 824 sem a doença.

Os pesquisadores cruzaram registos detalhados de aplicação de pesticidas na Califórnia com os endereços de casa e de trabalho dos participantes. Assim, conseguiram estimar a exposição de longo prazo com mais precisão, sem depender apenas da memória das pessoas.

Os resultados indicaram que a exposição prolongada ao clorpirifós eleva o risco de doença de Parkinson. O risco foi maior em indivíduos expostos muitos anos antes do aparecimento dos sintomas.

Esse padrão reforça a ideia de que o dano cerebral começa bem antes de a doença se tornar evidente. Também foi observado que períodos mais longos de exposição apresentaram associações mais fortes com o Parkinson.

O que acontece dentro do cérebro

Experimentos em laboratório ajudaram a esclarecer como o pesticida pode causar dano. Camundongos expostos ao clorpirifós desenvolveram alterações motoras e perderam neurónios produtores de dopamina.

Esses são os mesmos neurónios que morrem na doença de Parkinson. Os cientistas ainda observaram acúmulo de uma proteína nociva chamada alfa-sinucleína, que pode formar aglomerados no cérebro.

O trabalho também apontou sinais de inflamação cerebral. Células imunes do cérebro, conhecidas como micróglia, ficaram mais ativas e mudaram de forma. Esse tipo de alteração aparece com frequência em doenças neurológicas e pode agravar o dano.

Estudos com animais confirmam o dano

Para compreender melhor o processo, os pesquisadores recorreram a peixes-zebra, um modelo útil para estudar atividade cerebral por ter um sistema nervoso fácil de observar.

Nesses testes, o clorpirifós também levou à perda de neurónios de dopamina.

Os cientistas analisaram ainda uma proteína nesses peixes semelhante à alfa-sinucleína. Quando essa proteína foi removida, o dano não ocorreu. O achado sugere que o pesticida afeta o cérebro por vias biológicas específicas.

O sistema de limpeza do cérebro

Um dos resultados mais relevantes envolve a autofagia, mecanismo que as células usam para eliminar resíduos. O clorpirifós interfere nesse sistema, favorecendo o acúmulo de proteínas prejudiciais.

Quando os pesquisadores conseguiram restaurar esse “sistema de limpeza” nos experimentos, as células cerebrais mantiveram-se mais saudáveis - um sinal promissor para estratégias futuras.

“Este estudo estabelece o clorpirifós como um fator de risco ambiental específico para a doença de Parkinson, e não apenas os pesticidas como uma classe geral”, disse o Dr. Jeff Bronstein, professor de Neurologia da UCLA Health e autor sênior do estudo.

“Ao mostrar o mecanismo biológico em modelos animais, demonstramos que essa associação provavelmente é causal. A descoberta de que a disfunção da autofagia impulsiona a neurotoxicidade também nos aponta estratégias terapêuticas potenciais para proteger células cerebrais vulneráveis.”

O que isso significa para o futuro

Os achados reforçam que a exposição prolongada a pesticidas e a certos químicos pode aumentar o risco de Parkinson e de outras doenças graves do cérebro.

O estudo também chama atenção para a importância de investigar com mais cuidado os fatores ambientais. Agora, os cientistas planeiam avaliar pesticidas semelhantes e procurar formas de proteger o cérebro.

Compreender esses riscos pode ajudar as pessoas a tomar decisões mais informadas e a pressionar por um uso mais seguro de substâncias químicas. Além disso, abre caminho para abordagens que reforcem os sistemas naturais de defesa do cérebro.

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