Menos mudança de casa, mais planejamento para o “para sempre”
Quando a designer de interiores e apresentadora Julia Kendell começou na profissão, ela conta que o valor de um imóvel era avaliado por um único critério direto… a metragem em metros quadrados. "Quanto maior, melhor, ponto final."
Há quase 20 anos como palestrante na Feira de Construção e Reforma, ela diz que, sempre que alguém fazia uma ampliação - ou erguia uma casa do zero - o raciocínio era praticamente o mesmo: "vamos construir o máximo que der para passar".
"Como metros quadrados tendem a equivaler a valor, então as pessoas assumiam que era isso que deveriam fazer." Só que, nos últimos anos, ela nota uma mudança enorme relacionada à frequência com que as pessoas trocam de casa.
"Conversando com a maioria das pessoas hoje, até gente bem mais jovem - quando tem a sorte de conseguir comprar o primeiro imóvel -, aquela casa vira a casa para a vida toda."
Como Kendell observa: "Elas não ficam pensando ‘A gente muda em cinco anos’ porque ficou simplesmente caro demais. Então as pessoas estão dizendo ‘Como é que eu consigo comprar meu primeiro imóvel?’."
"‘E como eu faço disso algo que vai servir para mim para sempre?’"
Além disso, ela afirma que, "com os custos de construção por metro quadrado tão monumentais hoje", faz muito mais sentido construir o que você realmente precisa - e não apenas o que dá para fazer sem chamar atenção.
"Também houve uma mudança, se afastando de uma vida extravagante. Sabe essa ideia de ‘A gente tem que ter uma casa enorme para ostentar para os vizinhos’.
"Para mim, isso soa um pouco datado agora. E, de novo, muita gente com quem eu converso, principalmente a geração mais nova, não se motiva por isso."
Segundo ela, o foco passou a ser ter um lar que funcione de verdade para a pessoa e para a família. "E que traga tudo aquilo que uma casa deve ser para você, oferecendo uma sensação de proteção e segurança.
"Tipo quando você entra pela porta e finalmente consegue relaxar os ombros."
Para Kendell, não é uma discussão sobre ter mais espaço; é sobre o nível de organização da casa e sobre como ela é mobiliada. "Para que ela sustente você e sua família no dia a dia."
Designer para a televisão em vários programas - como Reforma em 60 Minutos e SOS Faça Você Mesmo - e dona da empresa de design de cozinhas Kendell e Cia., a profissional de 57 anos resume assim: "Um projeto inteligente pode fazer uma casa compacta parecer mais rica, mais luxuosa e mais agradável de viver do que uma maior, porém mal planejada."
Aqui, ela compartilha algumas dicas principais para criar essa sensação…
Truques de Julia Kendell para dar sensação de luxo sem aumentar a metragem
Luz, altura, organização e acabamentos: onde o resultado aparece
Altura antes da largura – repense o teto
A altura do teto é, para Kendell, um dos sinais de qualidade mais subestimados. "Mesmo um aumento modesto, de um padrão de 2,4 m para 2,6 m, pode transformar a sensação do ambiente.
"Tetos mais altos melhoram a luz, a circulação de ar e o ‘respiro’ visual, deixando os cômodos mais calmos e com cara de mais caros."
"Há um bom motivo para modelos serem altos; proporções alongadas valorizam a roupa, e o mesmo vale para os espaços internos."
Ela diz que, se não der para mexer na estrutura, ainda assim vale recorrer a alguns truques. "Trilhos de cortina instalados no teto, portas em altura total e painéis verticais fazem o olhar subir."
Pintar o teto na mesma cor das paredes (em vez de um branco muito marcado) ajuda a eliminar quebras visuais duras, sugere Kendell, o que faz o espaço parecer mais alto e mais integrado.
"Eu sou muito fã do banho de cor… muitas casas já não têm mais sanca e, quando existe aquele encontro entre parede e teto, isso me parece bem desajeitado; teto branco e parede colorida não é um detalhe bonito."
"E é para lá que o olho vai, e você não quer que isso seja a coisa na qual seus olhos ficam presos. Então, quando teto e paredes têm a mesma cor, você é atraído para outras coisas bonitas do cômodo."
Em termos de projeto, ela diz, a altura traz impacto; a largura só ocupa espaço.
Luz natural é o luxo definitivo
"A luz é o que faz os ambientes parecerem vivos", ela reforça. "Um espaço pequeno, mas bem iluminado, sempre supera um grande e sombrio."
A recomendação é tirar o máximo da luz do dia, dando prioridade à posição e às proporções das janelas. "Janelas mais altas, mesmo que sejam mais estreitas, parecem mais elegantes do que aquelas baixas e muito largas."
Ela também prefere cortinas leves, venezianas (shutters) ou persianas bem ajustadas para manter a privacidade sem abrir mão da claridade.
Quando for possível, Kendell orienta pensar em envidraçamento interno, portas de vidro ou em "emprestar" luz de corredores e escadas para espalhar claridade pela casa.
"Basicamente, envidraçamento interno é quando você tem um painel de vidro entre um cômodo e outro", ela explica. "Muitas vezes a frente da casa fica voltada para o sul e os fundos para o norte, e o meio do imóvel, indo para trás, pode ficar bem escuro.
"Se você conseguir, potencialmente, roubar luz das áreas mais claras, instalando algum envidraçamento interno entre os ambientes e deixando essa luz filtrar, isso faz uma diferença enorme, enorme.
"Captar luz natural em um imóvel é tudo."
Iluminação em camadas é sinónimo de qualidade
"Um único pendente no teto, bem no meio do cômodo, é uma entrega óbvia de que o espaço foi pensado com orçamento apertado", afirma Kendell. "Interiores de alto padrão sempre usam iluminação em camadas."
Ela diz que a iluminação deveria estar no topo da lista de prioridades de qualquer pessoa ao redesenhar um ambiente - ou ao construir do zero.
"Infelizmente, parece ser a única coisa que as pessoas deixam para o final, a não ser que seja um imóvel novo de alto padrão com sistemas de controlo e coisas assim.
"E muitas vezes deixam na mão dos construtores e dizem ‘Ah, põe o que você achar’ porque é uma daquelas coisas que elas não entendem muito; ou não compreendem o impacto que isso tem."
Mas, se você tratar como prioridade e pensar com cuidado: "Ela vai dar vida ao cômodo."
Ela recomenda buscar pelo menos três pontos de luz por ambiente… iluminação geral (spots embutidos ou luzes de lavagem de parede), iluminação de tarefa (luminária de leitura, fita sob armários da cozinha) e iluminação de destaque (abajures ou iluminação para quadros).
"O que quer que você queira realçar e chamar atenção, isso vai transformar o espaço por completo."
"Se você gastar todo o dinheiro do mundo e tiver um esquema de iluminação muito sem graça, nunca vai ficar fabuloso… e também não vai ser fabuloso estar ali dentro."
Armários embutidos valem mais do que criar novos cômodos
"Bagunça é inimiga do luxo", observa Kendell, dizendo que uma das formas mais eficazes de fazer a casa parecer cara é fazer o armazenamento "sumir".
Ela sugere roupeiros embutidos, bancos sob janelas com compartimentos ocultos, estantes do piso ao teto e painéis integrados para a TV - soluções que liberam área útil e deixam as linhas mais limpas.
"A TV é sempre a inimiga de um designer… a gente quer, e elas estão cada vez maiores. Inevitavelmente, é para onde seus olhos vão quando você entra na sala - e, do ponto de vista de um design de alto padrão, isso não é o ideal."
"Então, quanto mais você conseguir disfarçar a televisão, ou não fazer dela o foco do ambiente, melhor."
Daí a popularidade da chamada parede de media, em que a TV fica embutida em uma composição que parece intencional. "É sobre tudo parecer que foi pensado, e não remendado", diz a designer.
"E é isso que faz um ambiente ser confortável, funcionar bem e ficar bonito."
Use menos materiais - e escolha os melhores
Para Kendell, interiores com ar premium não nascem de uma profusão de materiais diferentes. "Designers preferem usar menos materiais, de boa qualidade, para criar coesão em todo o imóvel."
Ela recomenda restringir a paleta e repetir acabamentos de um cômodo para outro para criar continuidade, e acredita que um piso de madeira engenheirada por toda a casa parece muito mais luxuoso do que um conjunto misturado de carpete, cerâmica e laminado.
"A gente sempre usa o mesmo piso em toda a propriedade, as mesmas portas internas. Portanto, se você tem portas de carvalho, você teria uma escada de carvalho; carvalho em ferragens e acabamentos, onde for apropriado."
Com boas escolhas, ela diz, isso não precisa elevar o custo total.
"Em cozinhas e banheiros, priorize bancadas; torneiras e puxadores em vez de armários caros… esses são os elementos que você toca todos os dias, e a qualidade aparece."
"Um cômodo pequeno, mas finalizado de forma impecável, sempre vai parecer mais caro do que um grande finalizado de forma barata."
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