Quem sai do centro de Bento Gonçalves rapidamente encontra um cenário que parece voltar aos primeiros tempos da imigração italiana na Serra Gaúcha. Ao longo de 12 quilômetros, o roteiro Caminhos de Pedra concentra construções históricas, propriedades rurais e experiências conectadas aos costumes dos colonizadores que passaram a chegar à região a partir de 1875.
Mais do que alinhar pontos turísticos, o trajeto atua como um espaço vivo de preservação. As edificações que fazem parte do roteiro não foram erguidas para “imitar” um período: são casas centenárias que seguem em pé e que, em muitos casos, continuam sendo moradia de famílias ou base para atividades produtivas.
Por isso, o conjunto é visto como um dos registros mais relevantes da colonização italiana no Rio Grande do Sul. O roteiro recebeu o reconhecimento de Patrimônio Histórico e Cultural do Estado e tem como objetivo proteger a arquitetura, os modos de produção e os saberes passados entre gerações.
No caminho, a paisagem se alterna entre vinhedos, áreas de cultivo e pequenas propriedades familiares. O visual muda conforme as estações do ano e acompanha o ritmo dos ciclos da produção rural típica da região.
Essa proximidade com o campo também permite observar de perto práticas ligadas à agricultura, à criação de animais e ao cultivo doméstico - atividades que ainda integram a rotina local.
Casas de pedra e técnicas trazidas pelos imigrantes
Um dos traços mais emblemáticos do roteiro é a arquitetura construída com basalto. Ao chegarem à Serra Gaúcha, os imigrantes recorreram à pedra abundante no solo para levantar suas casas, transformando o que atrapalhava a agricultura em matéria-prima para a construção.
As paredes, que podem chegar a 60 centímetros de espessura, ajudavam a lidar com as variações de temperatura ao longo do ano. Essa técnica continua evidente em dezenas de edificações espalhadas por todo o percurso.
A conservação dessas estruturas virou um dos pilares do projeto. Ao longo da estrada, o visitante encontra casas, moinhos, cantinas e estabelecimentos comerciais que preservam características originais da ocupação italiana no século 19.
O roteiro também serve como ambiente de continuidade de ofícios tradicionais. Em paradas diferentes, dá para acompanhar atividades como tecelagem em tear manual, ferraria e marcenaria.
Mais do que encenações para turistas, essas práticas permanecem ligadas à economia das famílias que vivem ali e contribuem para manter técnicas anteriores à industrialização.
Da cantina à vinícola
A culinária é um dos eixos do Caminhos de Pedra. Os menus disponíveis ao longo da estrada se baseiam em receitas e hábitos alimentares trazidos pelos imigrantes italianos.
Massas feitas de forma artesanal, pães assados em fornos a lenha, embutidos e conservas aparecem com frequência na oferta de restaurantes, cantinas e cafés instalados no percurso.
A produção de vinho também tem papel central na vivência do roteiro. Pequenas vinícolas familiares recebem visitantes e apresentam tanto o cultivo das videiras quanto etapas dos processos de vinificação.
Além disso, o trajeto reúne estabelecimentos voltados à produção de queijos, erva-mate, chocolates, cucas e outros itens associados à tradição regional.
Entre as paradas, há vinícolas, restaurantes, casas de memória, espaços de artesanato e propriedades rurais que mantêm atividades produtivas abertas à visitação.
Uma visita sem pressa pela Serra Gaúcha
O formato do Caminhos de Pedra estimula uma visita em ritmo mais tranquilo. Como as atrações se espalham ao longo da estrada, o visitante pode montar o percurso conforme o que deseja ver e vivenciar.
Parte do que torna a experiência especial é o contato com moradores e descendentes dos primeiros imigrantes. Em muitos locais, os próprios proprietários recebem o público e dividem histórias sobre a formação da comunidade.
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Em algumas famílias, ainda dá para ouvir o talian, idioma derivado dos dialetos trazidos pelos imigrantes italianos e reconhecido como referência cultural da região.
Atualmente, o roteiro soma dezenas de empreendimentos, incluindo vinícolas, restaurantes, pousadas, parques temáticos, espaços de memória e oficinas de produção artesanal.
A pouca distância até o centro de Bento Gonçalves facilita fazer o trajeto em um único dia ou combiná-lo com roteiros mais amplos pela Serra Gaúcha.
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