Em 3 de fevereiro de 2023, um trem que transportava produtos químicos saiu dos trilhos em East Palestine, no estado de Ohio (EUA). Com o descarrilamento, vagões-tanque com materiais perigosos se romperam, alimentando incêndios químicos no sopé das Montanhas Apalaches.
O episódio ganhou repercussão mundial quando os governadores de Ohio e da Pensilvânia recomendaram a evacuação num raio de 1 milha (cerca de 1,6 km) ao redor do local. Chamas e fumaça subiam dos compostos em combustão, enquanto um odor acre se espalhava pela área do acidente, à medida que substâncias químicas iam para o ar e vazavam para um córrego próximo.
Três dias depois, por recomendação da empresa ferroviária Norfolk Southern, aproximadamente 1 milhão de libras (cerca de 454 toneladas) de cloreto de vinila - um composto que pode ser tóxico para seres humanos em doses elevadas - foi liberado dos vagões danificados e queimado.
Mais tarde, investigadores federais concluíram que a queima a céu aberto e a nuvem escura em formato de cogumelo gerada por ela não eram necessárias. Quando essa avaliação veio a público, porém, já era tarde: os produtos químicos dos vagões haviam se espalhado por Ohio e pela Pensilvânia.
Como engenheiros ambientais, eu e meus colegas frequentemente somos acionados por órgãos governamentais e comunidades para apoiar decisões de saúde pública depois de desastres. Após a ordem de evacuação ser suspensa, moradores nos procuraram em busca de orientação.
Em um novo estudo, detalhamos a contaminação que identificamos e apontamos falhas na resposta e na limpeza que, em alguns casos, elevaram as chances de exposição de pessoas a substâncias perigosas. O caso traz lições importantes para proteger melhor as comunidades no futuro.
Como os produtos químicos chegam às casas e à água
Quando grandes quantidades de produtos químicos são liberadas no ambiente, o ar pode se tornar tóxico. Essas substâncias também podem ser carregadas para cursos d’água e infiltrar-se no solo, contaminando águas subterrâneas e poços. Em alguns casos, compostos migram pelo subsolo até edificações próximas, tornando o ar interno inseguro.
A poluição do ar entra em construções por frestas, janelas, portas e outras aberturas. Uma vez no interior, os químicos podem impregnar itens domésticos como carpetes, cortinas, móveis, bancadas e roupas. E, quando o ar é movimentado, essas substâncias podem voltar a se desprender dos materiais.
Ordem de evacuação suspensa, mas prédios estavam contaminados
Três semanas após o descarrilamento, iniciamos uma investigação sobre a segurança da área ao redor de 17 edifícios em Ohio e na Pensilvânia. A maior concentração de poluição no ar ocorreu na zona de evacuação de 1 milha (1,6 km) e numa faixa adicional de “abrigo no local” que se estendia por mais 1 milha (1,6 km) além desse perímetro. Ainda assim, a pluma química também avançou para fora dessas áreas.
Dentro e fora de East Palestine, encontramos indícios de que substâncias dos vagões haviam penetrado em edifícios. Muitos moradores relataram dores de cabeça, erupções cutâneas e outros sintomas de saúde ao voltarem a ocupar esses locais.
Em um prédio a 0,2 milha (aprox. 0,32 km) do ponto do descarrilamento, o ar interno permaneceu contaminado por mais de quatro meses.
Nove dias depois do acidente, um proprietário realizou testes avançados de ar e constatou que o ambiente interno estava contaminado com acrilato de butila e outros compostos transportados pelo trem. O acrilato de butila foi medido acima do nível de exposição de duas semanas - uma referência que indica a necessidade de medidas para proteger a saúde humana.
Quando contratados da empresa ferroviária foram ao local 11 dias após o desastre, a equipe foi embora depois de apenas 10 minutos. Eles registraram um "odor avassalador/desagradável", embora os detectores portáteis de poluição do ar aprovados pelo governo não tenham apontado presença de substâncias. Esse edifício ficava diretamente sobre o córrego Sulphur Run, que havia sido fortemente contaminado pelo vazamento. É provável que os compostos tenham entrado tanto pelas primeiras plumas de fumaça quanto pela liberação de vapores do córrego para dentro da construção.
Semanas mais tarde, nossos testes mostraram que produtos químicos dos vagões haviam impregnado até as pulseiras de silicone que a empresa mantinha nas prateleiras. Também identificamos diversos outros compostos possivelmente associados ao derramamento.
Algumas semanas após o descarrilamento, autoridades governamentais verificaram que o ar no East Palestine Municipal Building, a cerca de 0,7 milha (aprox. 1,13 km) do local do acidente, também estava contaminado. Substâncias no ar entraram no prédio por meio de um cano de drenagem aberto ligado ao Sulphur Run.
Mais de um mês depois de a evacuação ter sido suspensa, a Agência de Proteção Ambiental de Ohio reconheceu que vários edifícios em East Palestine estavam sendo contaminados enquanto contratados limpavam bueiros contaminados sob e ao lado de construções. Os químicos estavam penetrando nos prédios.
Água contaminada pode gerar ar contaminado
O córrego que atravessava a cidade ficou severamente contaminado com o vazamento. Mais de 43.000 peixes morreram a jusante, e os químicos percorreram 270 milhas (435 quilômetros) rio abaixo pelo Rio Ohio.
À medida que a água poluída seguia seu curso, substâncias mais leves, como o acrilato de butila, naturalmente deixavam o córrego e passavam para o ar por um processo chamado volatilização.
De forma não natural, porém, os equipamentos empregados na limpeza dos córregos também transferiram compostos da água para o ar. Moradores próximos a equipamentos de aeração - que injetam ar na água, em parte para ajudar peixes a sobreviver - relataram odores entrando em suas casas e problemas de saúde. Nosso estudo indica que as concentrações no ar podem ter sido de 2 a 25 vezes maiores nas proximidades desses aeradores.
Ao longo do período de quatro meses analisado, a chuva e as ações de contratados - que aumentavam e diminuíam a vazão - também remexeram os córregos, liberando ainda mais químicos para a atmosfera.
Medidas para proteger a saúde pública em desastres futuros
Assim como em desastres anteriores, o que ocorreu em East Palestine deixa várias lições para comunidades.
Uma das mais importantes é que as comunidades exijam, imediatamente após um incidente químico, um diagrama de vias de exposição. Essa ilustração ajuda a identificar ameaças potenciais - seja pelo ar, seja por bueiros sob os edifícios - e a visualizar onde são necessários testes e orientações.
Também é essencial acompanhar a saúde de quem foi exposto aos químicos. Como muitas pessoas adoeceram em East Palestine e nos arredores, e como os testes conduzidos sob supervisão de órgãos governamentais não conseguiram apontar as condições exatas ligadas às doenças, recomendamos monitoramento médico de longo prazo para os afetados.
Quem estava mais próximo do local do desastre - pessoas que moravam, trabalhavam ou visitavam edifícios que ficaram contaminados - provavelmente sofreu as maiores exposições. Entre os que relataram problemas de saúde estavam ferroviários, servidores públicos, trabalhadores da limpeza, visitantes e residentes de Ohio e da Pensilvânia. A Norfolk Southern e um contratado foram autuados por não protegerem trabalhadores contra exposição.
A contaminação interna de edifícios pode se prolongar. Assim como acontece com a fumaça de incêndios florestais, os prédios afetados precisam de limpeza profissional, porque os químicos podem permanecer por meses.
As áreas externas das construções também precisam ser descontaminadas. Caso contrário, as substâncias podem continuar sendo liberadas das superfícies para o ar.
Há, ainda, necessidade de métodos melhores e de políticas baseadas em evidências para identificar rapidamente exposições químicas. Meses depois de aprovar o uso de dispositivos portáteis para triagem do ar em casas, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA concluiu que esses detectores não poderiam ter alertado de forma confiável para acrilato de butila em todos os níveis capazes de causar problemas de saúde. Além disso, nem todos os químicos derramados foram monitorados dentro dos edifícios.
Em desastres complexos, recomendamos a convocação de especialistas externos às agências e às empresas responsáveis pela resposta, para oferecer a expertise específica necessária.
Andrew J. Whelton, Professor de Engenharia Civil, Ambiental e Ecológica, Purdue University
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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