Os alertas estão longe de ser novidade. Entre 2024 e 2025, a cadeia de fornecimento automotiva europeia já viu mais de 100 mil empregos desaparecerem - um de vários indícios de uma crise estrutural que se aproxima e sobre a qual a CLEPA (Associação Europeia de Fornecedores Automóveis) vem chamando atenção repetidamente.
Em um documento divulgado recentemente, a entidade afirma que a capacidade de geração de valor da indústria automotiva na Europa está ameaçada. Uma análise realizada em conjunto pela Roland Berger e pela CLEPA calcula que, diante de uma desvantagem competitiva estrutural de 15% a 35%, a Europa pode perder até 23% do valor gerado por veículo nos próximos cinco anos. No curto prazo, isso coloca em risco até 350 mil postos de trabalho.
No centro do problema está o fato de que as montadoras chinesas conseguem fabricar carros elétricos a um custo bem menor do que as europeias - em alguns casos, 30% mais baratos.
Reino Unido como parte da “União”
Para conter esse movimento, a Comissão Europeia (CE) apresentou o Industrial Accelerator Act (IAA), uma lei que, entre outras diretrizes, define que quem quiser acessar licitações públicas ou programas de incentivo na UE voltados à produção automotiva (principalmente veículos elétricos, híbridos plug-in e a hidrogênio) terá de produzir localmente com, no mínimo, 70% de componentes de origem europeia.
Embora a CLEPA veja a proposta com bons olhos, a associação entende que, no formato atual, há exceções demais para que a medida funcione como deveria. Um dos pontos mais debatidos durante a elaboração do texto foi, justamente, o que passa a ser considerado “produção europeia”.
Pelo desenho apresentado pela Comissão, entram automaticamente os bens produzidos nos 27 Estados-membros da União Europeia, deixando de fora o Reino Unido e os países da EFTA (Islândia, Suíça, Liechtenstein e Noruega).
Diante disso, a entidade também defende que o Reino Unido e os países da EFTA sejam incluídos de forma explícita na definição de “União”, mas ressalta que qualquer reconhecimento de equivalência precisa assegurar reciprocidade real e condições de concorrência equilibradas.
Vale lembrar que a UE já havia sinalizado a intenção de incluir o Reino Unido, o Japão e outros parceiros nas exigências de conteúdo local, para que veículos fabricados nesses países pudessem ser classificados como “Made in Europe”. Ainda assim, até aqui, nada foi confirmado oficialmente.
Outros pedidos
A exceção hoje prevista permite que órgãos ou programas de apoio público desconsiderem as exigências de origem da UE sempre que cumpri-las significar um aumento de custo superior a 25% (ou 30%) em relação a alternativas.
Para a CLEPA, esse mecanismo enfraquece a proteção. Como muitos veículos (especialmente os chineses) superam essa diferença, a tendência é que a exceção seja acionada com frequência, esvaziando a eficácia da lei, argumenta a associação. Por isso, ela defende elevar esse limite para 35%.
Outro ponto levantado é o alcance da norma. Da forma como está, o IAA cobre apenas 20% a 30% das vendas - percentual que, na visão da entidade, é insuficiente para produzir um efeito relevante. Além disso, como cada país da UE pode desenhar seus próprios esquemas de apoio, surge o risco de haver 27 regras diferentes, o que aumenta a confusão e torna o ambiente imprevisível para as empresas.
Também entram na discussão as regras ligadas a investimento estrangeiro. A proposta estipula investimento mínimo de 100 milhões de euros para acessar determinados benefícios - um patamar considerado alto demais para a maioria dos fornecedores, que normalmente investem em projetos menores, ainda que igualmente importantes. A CLEPA propõe reduzir esse mínimo para 30 milhões de euros.
O que está em jogo
Os dados ajudam a dimensionar o impacto potencial. Fornecedores automotivos europeus empregam diretamente 1,7 milhão de pessoas, investem mais de 30 bilhões de euros por ano em pesquisa e desenvolvimento e registram mais de 39 mil novas patentes anualmente. No agregado, o setor responde por 30% de todo o investimento em P&D na União Europeia.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário