Sob o solo pedregoso de Marrocos, cientistas encontraram um intruso inesperado vivendo sem ser detetado dentro de colónias de cupins.
Pouquíssimos forasteiros conseguem ser aceitos na sociedade dos cupins, mas uma espécie de mosca-varejeira evoluiu um disfarce multipartes extraordinário que engana os insetos. Assim, as suas larvas não apenas sobrevivem como, ao que tudo indica, prosperam dentro do ninho.
Segundo um novo estudo, isso ainda não tinha sido documentado de forma sólida nessas moscas. Os autores afirmam que a descoberta foi, em grande parte, fruto do acaso: as larvas estavam a habitar colónias nos montes Anti-Atlas, no sul de Marrocos, onde cupins-ceifeiros nativos (Anacanthotermes ochraceus) constroem ninhos subterrâneos.
Como as larvas foram encontradas nos montes Anti-Atlas
O biólogo evolutivo Roger Vila, do Instituto de Biologia Evolutiva, em Espanha, e a sua equipa estudam borboletas e formigas. Como naquele dia havia poucas borboletas ativas por causa das chuvas recentes, o grupo decidiu procurar formigas.
"Quando levantamos uma pedra, encontramos um cupinzeiro com três larvas de mosca que nunca tínhamos visto antes", diz Vila. "A água provavelmente inundou as camadas mais profundas do ninho e as larvas emergiram para a superfície."
A curiosidade levou os investigadores a regressar ao local por mais três vezes. Eles levantaram centenas de pedras, mas localizaram apenas mais duas larvas, que estavam juntas dentro de um cupinzeiro.
Para Vila, isso sugere que a espécie é rara. Uma análise filogenómica indica que as moscas-varejeiras pertencem ao género Rhyncomya, embora ainda seja necessário mais trabalho para investigar a abundância, além de outros aspetos da sua biologia e ecologia.
Ainda assim, o que já se sabe é impressionante.
Defesas dos cupins e por que invadir um ninho é tão difícil
Os cupins usam as antenas para tocar e cheirar qualquer um que entre, o que os ajuda a reconhecer rapidamente ameaças. Para lidar com intrusos, há cupins-soldado especializados, com mandíbulas enormes.
Mesmo com esse risco, a combinação de segurança, controlo climático e garantia de alimento dentro da colónia pode tornar tentadora a tentativa de infiltração por outros insetos.
A “máscara de cupim” e os tentáculos que enganam os anfitriões
Como parte do disfarce, as larvas da mosca-varejeira exibem uma "máscara de cupim" na extremidade traseira do corpo. Trata-se de uma cabeça falsa, equipada com antenas e palpos semelhantes aos de um cupim-ceifeiro.
Essa cabeça fictícia também traz olhos falsos, muito parecidos com os olhos do cupim-ceifeiro. Na realidade, observa Vila, essas estruturas são orifícios respiratórios.
"A maioria dos cupins vive a vários metros de profundidade e não tem perceção visual", diz Vila. "No entanto, os cupins-ceifeiros saem ao crepúsculo para recolher relva, por isso têm olhos funcionais que as larvas conseguem imitar com os seus espiráculos."
Para além da cabeça falsa, o corpo das larvas é coberto por estranhos "tentáculos". Com microscopia eletrónica de varrimento, os investigadores mostraram que essas projeções são imitações inquietantemente fiéis das antenas dos cupins.
Ao contrário da cabeça simulada, esses tentáculos podem ter utilidade prática. As moscas parecem usá-los de facto para comunicar com os cupins.
E, como as larvas têm muitas dessas saliências, conseguem manter contacto com vários cupins ao mesmo tempo.
São adaptações notáveis, mas isoladamente ainda não bastariam.
O disfarce químico: cheirar exatamente como a colónia
Cada colónia de cupins tem um odor próprio, partilhado por todos os membros. Sem essa assinatura química, ninguém é admitido: parecer um cupim não ajuda se o cheiro não corresponder - intrusos de outras colónias não são bem-vindos e podem ser desmembrados por soldados.
Mas, segundo Vila, essas larvas dominam a arte da infiltração. Elas não apenas imitam o cheiro da colónia: elas conseguem igualá-lo com precisão total.
"Quantificámos a composição química dessas larvas e o resultado é surpreendente: elas são indistinguíveis dos cupins na colónia onde vivem; cheiram exatamente igual", diz ele.
Observações no laboratório: atenção, limpeza e possível alimentação
No ambiente natural, quando Vila e os colegas as encontraram, as larvas estavam nas câmaras de alimento dos hospedeiros. Os investigadores levaram algumas para um cupinzeiro montado em laboratório, onde as larvas tenderam a deslocar-se para áreas mais povoadas.
Os cupins mostraram-se extremamente atentos: juntavam-se à volta das larvas e faziam limpeza (grooming) nelas. Também pareceram alimentá-las.
"As larvas não são apenas toleradas, como comunicam constantemente com os cupins por meio do contacto com os seus tentáculos semelhantes a antenas", diz Vila. "Os cupins até parecem alimentá-las, embora isso ainda não tenha sido demonstrado de forma inequívoca."
Algumas moscas-corcundas (Phoridae) também imitam cupins, mas fazem isso quando adultas, não na fase larval. Além disso, não são parentes próximas dessas moscas-varejeiras, o que indica que os truques evoluíram de maneira independente.
"O ancestral comum de moscas-varejeiras e moscas-corcundas remonta a mais de 150 milhões de anos, muito mais do que o que separa humanos de ratos. Por isso, estamos confiantes de que descobrimos um novo caso de evolução de integração social", diz Vila.
Não se conhece nenhuma outra espécie do género Rhyncomya com aparência ou modo de vida semelhantes, o que sugere uma evolução relativamente rápida.
"Esta descoberta convida-nos a reconsiderar os limites e o potencial das relações simbióticas e do parasitismo social na natureza", diz Vila.
"Mas, acima de tudo, devemos perceber o quanto ainda não sabemos sobre a vasta diversidade e especialização dos insetos, que são organismos essenciais nos ecossistemas."
O estudo foi publicado na revista Current Biology.
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