Cuidar de uma planta pede atenção aos ritmos dela. Entender esses ciclos dá a sensação de que existe uma ordem possível - um tipo de alívio diante das incertezas do mundo. Para mim, a leitura de O jardim contra o tempo - Em busca de um paraíso comum, de Olivia Laing, produz algo parecido.
Jardinagem caseira, ciclos e a necessidade de previsibilidade
Foi sobretudo durante os confinamentos da pandemia que comecei a levar a sério uma jardinagem doméstica - e isso sem ter varanda. A minha solução foi básica: eu tinha me mudado havia pouco para uma casa bem iluminada e passei a testar coisas, meio na tentativa e erro. Toda semente que eu tirava de uma fruta acabava virando experiência, enterrada na terra (daquele período, ainda tenho um limoeiro na sala, perto da janela, que no ano passado começou a florir).
Não era só para preencher o tempo. De algum jeito, acompanhar cada etapa obrigava a prestar atenção aos calendários naturais: germinar, crescer, firmar, florir, murchar. E, ao fazer isso, eu conseguia me agarrar a uma ideia de previsibilidade - tão necessária naqueles dias instáveis.
A glória-da-manhã e o prazer de ver a planta florescer
Dias atrás, dentro de um vasinho pequeno, a flor de uma planta que eu tinha semeado semanas antes começou a dar sinais. Nos dois últimos dias, ela foi se alongando, como um sino fechado em espiral, quase desproporcional em relação ao resto do pé - baixo, de folhas miúdas.
Numa dessas manhãs, a glória-da-manhã fez valer o nome: antes mesmo de eu levantar a persiana, ela já tinha se aberto. Ali estava, em rosa choque, ao mesmo tempo imponente e frágil.
Eu sabia que aquela cena duraria só algumas horas. Tirei foto para guardar e para mandar para amigos. Não sei por que sinto algo parecido com orgulho quando as plantas sob os meus cuidados dão flor, ficam viçosas, aparentam saúde - ou quando um simples pé de salsa chega ao fim do ciclo com o bônus das florzinhas esbranquiçadas.
Talvez não seja orgulho. Eu não tenho um jardim planejado como alguém que realmente entende do ofício teria. Deve ser só alegria por conseguir oferecer a esses seres vivos condições razoáveis para que cresçam bem. E, sim, eu me entristeço quando não consigo - quando alguma planta morre.
Natureza “controlada” e o impulso humano de moldar jardins
Quando falo em natureza, na prática estou falando de uma natureza “domesticada”, ajustada aos gostos e às necessidades humanas. Jardim nenhum é inteiramente natural. A natureza, mesmo com o equilíbrio que a mantém funcionando sem a nossa interferência, costuma parecer caótica e até assustadora para o nosso olhar.
Esse impulso humano de enquadrar e controlar a vida vegetal foi um tema que eu aprofundei depois de ganhar um livro - quem me deu já desconfiava de que eu iria me apaixonar. Foi O jardim contra o tempo - Em busca de um paraíso comum, da britânica Olivia Laing, lançado em 2024 e, infelizmente, ainda sem edição em Portugal. Ela virou imediatamente a minha autora favorita da atualidade.
Olivia Laing e O jardim contra o tempo (história, classe e exclusões)
No livro, Laing começa narrando a própria relação com jardins e como, durante a pandemia, finalmente teve um jardim seu, que pôde reconstruir. Ainda assim, o foco não é autobiográfico: o eixo do texto é a história do que significa procurar um paraíso na Terra - e o que essa ideia carrega.
Ao examinar jardins e parques britânicos, a análise ganha contornos duros. Nesses espaços, frequentemente se escondem um passado ligado à escravidão, a expropriação de terras de camponeses e mecanismos de exclusão de classe.
Mas Laing também mostra que jardins podem funcionar como abrigo para quem vive à margem. Há pessoas que construíram “paraísos” particulares: lugares seguros, onde fosse possível existir com mais liberdade. É o caso de Derek Jarman, que, além de cineasta e ativista LGBTQIA+, era um jardineiro extraordinário e fez isso no Chalé Prospect, na costa de Kent.
Outro exemplo aparece no movimento Artes e Ofícios, protagonizado pelo designer William Morris no século XIX, como reação à industrialização. Inspirado pelo socialismo utópico, o desejo era trazer a arte para dentro do cotidiano - e fazer das formas da natureza o seu motivo estético.
Paraíso como obra em andamento
Sem cair na falácia de que existiu um paraíso perdido que a humanidade tenta recuperar, eu tendo a acreditar que paraíso é sempre um projeto em curso - pelo menos enquanto existir o desejo de uma humanidade vivendo em harmonia.
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