Ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas estão a impor um esforço crescente ao gado na Europa, e novas projeções indicam que essa pressão pode aumentar de forma acentuada até meados do século.
Até 2050, milhões de animais podem passar a enfrentar semanas adicionais de calor perigoso a cada verão, o que obriga os produtores a equilibrar bem-estar animal e viabilidade económica da fazenda.
O risco, porém, não se distribui de maneira uniforme. Ele tende a concentrar-se nas áreas mais quentes e também em instalações fechadas e lotadas, onde o calor se acumula rapidamente e é mais difícil oferecer alívio.
À medida que os verões se tornam mais extremos, decisões rotineiras sobre alojamento, tamanho do rebanho e uso da terra passam a ter, na prática, um componente climático.
Para identificar com precisão onde a pressão será maior, investigadores do International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA) cruzaram cenários futuros de ondas de calor com a localização real de bovinos em toda a Europa.
Os resultados ajudam a explicar por que soluções eficazes para rebanhos em pastoreio podem falhar dentro de galpões - e por que a adaptação terá de variar significativamente de uma região para outra.
Contando bovinos sob calor
A análise acompanhou mais de 70 milhões de bovinos distribuídos por 1,3 milhão de fazendas, distinguindo rebanhos em pastagem de sistemas indoor (confinados) para mapear onde o stress térmico tende a aumentar com mais força.
Até meados do século, projeta-se que entre 6,2 e 13,7 milhões de unidades de gado estarão expostas a níveis perigosos de calor - cerca de 11 a 22% do gado atualmente existente na Europa, a depender do rumo das emissões.
O impacto é desigual. O sul da Europa concentra o maior risco, em parte porque muitos rebanhos já operam perto dos limites considerados seguros para as temperaturas de verão.
O estudo destacou Itália, Espanha, Grécia, Eslovênia, Romênia e Bulgária como áreas críticas, com zonas de produção intensiva - como o Vale do Pó, no norte de Itália, e a Catalunha, em Espanha - combinando elevados efetivos de bovinos com um aumento rápido de dias de onda de calor.
Regiões atlânticas e alpinas, mais frescas, apresentam menor exposição média; ainda assim, mesmo um aquecimento moderado pode pressionar fazendas concebidas para verões historicamente amenos.
Vale notar que os investigadores do IIASA mapearam a exposição ao calor, e não mortes ou perdas de produção, e também não partiram do pressuposto de que os produtores permanecerão passivos à medida que o calor se intensifica.
Galpões, pastagens e calor
Bovinos mantidos em instalações fechadas tendem a enfrentar alguns dos riscos mais elevados, porque galpões lotados retêm calor e humidade.
Sob o mesmo limiar térmico, projeta-se que 18 a 35% dos bovinos em sistemas indoor vivenciem dias adicionais de onda de calor, face a 4,5 a 12% nos rebanhos em pastoreio. Quando o ar no galpão permanece quente, as vacas aumentam a frequência respiratória e reduzem a ingestão, o que pode diminuir a produção de leite e a fertilidade.
Medidas de arrefecimento como ventiladores e aspersores ajudam a reduzir esse stress, mas modernizar galpões antigos exige investimento e acesso a eletricidade fiável - algo que nem todas as fazendas têm.
Nos sistemas a pasto, os desafios são outros. Em áreas abertas, os animais podem ficar expostos ao sol direto por horas, elevando a temperatura corporal mesmo quando a temperatura do ar é mais baixa.
Árvores de sombra e abrigos simples contribuem para resfriar a pele e desacelerar a respiração; além disso, horários de pastoreio mais flexíveis e oferta abundante de água podem diminuir a exposição.
Por outro lado, a seca pode limitar tanto o acesso à água quanto o crescimento das forragens; e o plantio de árvores pode levar uma década para entregar alívio, deixando os produtores dependentes de soluções de curto prazo durante as temporadas de calor mais próximas.
Stress térmico encontra falta de ração
As ondas de calor também atingem a cadeia de alimentação por trás de cada rebanho, já que o crescimento das pastagens e a disponibilidade de ração armazenada dependem de condições mais amenas.
Outro comunicado do IIASA relacionou, no mesmo contexto, o calor que afeta diretamente os animais e as perturbações na oferta de alimento enfrentadas pelos produtores. Ao mesmo tempo em que stressam os bovinos, as ondas de calor também reduzem a pastagem e a ração armazenada de que eles dependem, pressionando dois lados do sistema produtivo de uma vez.
“Heatwaves already threaten cattle welfare, productivity and survival, while also disrupting grassland and feed production,” disse o autor principal do estudo, Ziga Malek, investigador associado e professor assistente no IIASA.
Quando ondas de calor coincidem com seca, os produtores acabam por comprar mais ração e ver as margens encolherem, e alguns desistem da pecuária de bovinos.
Planos climáticos pressionam fazendas
As metas climáticas da União Europeia (UE) exigem que as fazendas reduzam emissões, ao mesmo tempo em que as ondas de calor elevam o custo de produzir. Bovinos libertam metano durante a fermentação do alimento por microrganismos no rúmen, e esse gás contribui para reter calor na atmosfera.
O estrume também pode libertar azoto para o ar e a água, o que faz com que regiões com rebanhos densos enfrentem regras de poluição mais rigorosas.
Como as ondas de calor elevam simultaneamente os riscos de bem-estar, os planos climáticos passam a competir com a tarefa diária de manter os animais em condições confortáveis.
Adaptando fazendas de bovinos ao calor
Como o clima e o desenho das fazendas variam amplamente pela Europa, não existe um único plano de calor capaz de proteger o gado do Portugal à Polônia.
Sistemas indoor precisam de ventilação e arrefecimento mais eficazes, enquanto sistemas de pastagem exigem sombra, pontos de água e calendários de pastoreio que evitem o calor do meio do dia.
Equipamentos de arrefecimento consomem eletricidade e requerem manutenção; além disso, fazendas que precisem cortar emissões podem ter de recorrer a energia mais limpa para operar essas soluções. “There is no one-size-fits-all solution when it comes to the European cattle sector,” disse Malek.
Escolhas difíceis para produtores de bovinos
Nas regiões mais expostas, algumas fazendas podem ter dificuldade para se adaptar sem reduzir o número de animais na mesma área. Menores densidades de lotação diminuem o stress térmico, limitam o acúmulo de estrume e aliviam a pressão sobre a oferta de ração durante períodos secos, mas também trazem custos sociais e económicos.
Reduzir o tamanho do rebanho pode ameaçar empregos rurais e produtos tradicionais, já que a pecuária sustenta queijos protegidos e paisagens mantidas com cuidado em lugares como a Itália.
Apoio público e regras claras de política podem amortecer esse impacto; por outro lado, adiar medidas aumenta o risco de saídas abruptas da atividade.
Mapas como estes conectam risco climático, sistemas de produção e biologia animal, apontando onde a Europa enfrentará as decisões mais difíceis sobre o seu gado.
Os próximos passos passam por testar soluções locais, monitorizar temperaturas dentro das fazendas e ponderar custos e compensações, porque números de exposição, por si só, não determinam qual caminho os produtores devem seguir.
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