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Hangar Tecnológico da Unesp em São João da Boa Vista e a equipe Adelphi Aerodesign

Grupo de jovens em coletes refletivos ao redor de um drone grande em oficina tecnológica.

Hangar Tecnológico da Unesp em São João da Boa Vista

Inaugurado em 2012, o câmpus de São João da Boa Vista está entre os mais recentes da Unesp. Nele funciona a Faculdade de Engenharia de São João (FESJ) - uma unidade jovem que, ainda assim, faz parte de um grupo restrito de instituições brasileiras que contam com hangar próprio para atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Em operação desde 2022, a estrutura é vista como um diferencial na formação: amplia o contato dos estudantes com rotinas e demandas do setor produtivo e serve de base para uma equipe universitária de aerodesign que vem se destacando entre as melhores do país.

Conhecido como Hangar Tecnológico, o espaço tem 1.294 m² de área total, com 600 m² de área interna. Um ponto pouco comum mesmo entre universidades que dispõem de locais para abrigar aeronaves é o acesso direto dos portões à pista de pouso e decolagem do Aeroporto Municipal, o que permite que os alunos desenvolvam atividades em um ambiente aeronáutico real.

O hangar é vinculado à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e foi cedido à Unesp no fim de 2021, por meio de um regime de concessão com contrato em vigor até 2050. “O hangar não é de uso exclusivo para os alunos de engenharia aeronáutica, ele é usado também pelos estudantes de engenharia eletrônica e de telecomunicações para pesquisa e integração”, explica Edemar Morsch Filho, docente do departamento de aeronáutica e coordenador do Hangar Tecnológico.

Infraestrutura do hangar e uso acadêmico na FESJ

Entre os recursos disponíveis para os estudantes, há uma câmara anecoica. Trata-se de um ambiente planejado para absorver totalmente ondas sonoras ou eletromagnéticas e, ao mesmo tempo, blindar o espaço contra ruídos externos. Lá dentro, o nível de silêncio é tão alto que uma pessoa passa a perceber sons que normalmente ficam mascarados, como batimentos do coração e o sangue circulando nos vasos. Além do estranhamento que esse tipo de experiência pode provocar, esse silêncio absoluto transforma a câmara em um laboratório adequado para ensaios de propagação de antenas, frequentemente conduzidos por alunos de engenharia eletrônica e de telecomunicações.

Pesquisa no Hangar Tecnológico da Unesp

As salas do hangar também são ocupadas por grupos de pesquisa da Faculdade. Um deles é o Núcleo de Estudos em Transferência de Calor e Nanotecnologia (NEST-n), dedicado ao estudo da transferência de calor com mudança de fase, abrindo caminho para tecnologias voltadas à minimização de equipamentos e à dissipação de altas taxas de transferência de calor. Outro é o Grupo de Pesquisa em Estruturas, Manufatura e Materiais (GPEM2), que busca desenvolver materiais e processos de manufatura de estruturas e componentes para diferentes aplicações industriais.

A tendência é que a presença do hangar como espaço de pesquisa se intensifique nos próximos anos. Em maio, a FESJ criou o Programa de Pós-Graduação em Engenharia Aeronáutica, com duas linhas de pesquisa. A primeira, Fenômenos de Transporte e Gestão Térmica em Sistemas Aeronáuticos, se dedica a analisar e otimizar processos de transferência de calor e massa em componentes como turbinas, motores, sistemas de propulsão elétrica e superfícies de sustentação, além de investigar como fenômenos térmicos afetam a eficiência e a segurança das aeronaves. A segunda, Estruturas e Sistemas Dinâmicos, reúne estudos sobre vibrações e estabilidade aeroelástica em componentes aeronáuticos e espaciais, bem como o desenvolvimento e a avaliação de materiais avançados voltados a estruturas de alto desempenho.

Edemar Morsch Filho ressalta que obter um hangar universitário não é simples, já que a estrutura envolve diversas restrições associadas à segurança. No Brasil, ainda são poucas as instituições de ensino superior com esse tipo de instalação disponível para alunos e pesquisadores; entre elas, estão o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Por reconhecer essa barreira, o coordenador afirma manter o espaço aberto a interessados externos. “Se pessoas de outras unidades tiverem interesse em utilizar, estamos de portas abertas, até mesmo para outras instituições. A gente sabe da dificuldade de conquistar esse espaço”, diz.

Atualmente, a Fundação para o Desenvolvimento da Unesp (Fundunesp) está trabalhando com a Universidade nas tratativas para incorporar à FESJ uma aeronave vinculada à Receita Federal. Se a destinação do pequeno avião for viabilizada, ele permanecerá no hangar e servirá de base para projetos acadêmicos e científicos em Engenharia Aeronáutica. “Nós temos, por exemplo, disciplinas de manutenção de aeronaves. Então o aluno poderia usar, de fato, para abrir, desmontar e remontar a aeronave para que ela volte a seu uso principal”, explica o professor.

Na avaliação de Morsch Filho, a FESJ combina disciplinas teóricas com atenção especial a ambientes laboratoriais que aproximam os estudantes do cotidiano profissional. “Antes mesmo do aluno pegar o diploma, trabalhar na indústria, ele já tem um contato um pouco mais profundo com essa estrutura, o que enxergamos como um diferencial que agrega na formação como engenheiro”, afirma.

Adelphi Aerodesign no Hangar Tecnológico e as competições

Desde o início de 2026, o Hangar Tecnológico passou a ser utilizado também pela Equipe Adelphi Aerodesign, formada por estudantes do câmpus de São João da Boa Vista. O grupo começou a se organizar em 2016, porém só entrou nas competições em 2019. De lá para cá, vem se firmando como uma das equipes de maior destaque no cenário nacional.

O time é tetracampeão na categoria Avançada da Competição SAE BRASIL AeroDesign, realizada anualmente pela SAE Brasil em São José dos Campos. Em 2024, conquistou o Troféu Embraer de Excelência de Projeto e, em 2026, ficou entre os 10 melhores do mundo no SAE Aero Design East, realizado em Lakeland, na Flórida (Estados Unidos). Nessas disputas, equipes compostas exclusivamente por estudantes precisam projetar, construir e testar uma aeronave radiocontrolada, buscando atender aos desafios definidos para cada categoria. Na Adelphi, os alunos se distribuem em duas frentes: Avançada e Micro.

No grupo Avançado, estão estudantes nos últimos anos da graduação, responsáveis por tarefas mais complexas - como lançar um planador autônomo a partir de uma aeronave-mãe. “Há um comando para lançar e esse planador deve, automaticamente, tudo já pré-programado, pousar exatamente em um alvo que é sinalizado na hora da competição”, explica Lucas Calache, professor responsável pela equipe na FESJ. As provas também incluem testes de desempenho, em que os avaliadores analisam, por exemplo, a carga máxima que a aeronave consegue transportar.

Já a categoria Micro reúne alunos que acabaram de ingressar no curso, com a proposta de apresentar os conceitos iniciais de manufatura aeronáutica e estimular o interesse desse público pelos torneios. As missões são mais simples, mas seguem exigentes - como desenvolver um eVTOL (Decolagem e Pouso Vertical Elétricos), isto é, uma aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical que, por exemplo, precisa transportar carga líquida durante as competições.

A partir de 2026, a equipe passou a usar o Hangar Tecnológico para a manufatura e parte dos testes das aeronaves voltadas às competições. Além disso, os alunos contam com uma sala de reuniões e convivem de perto com a rotina da aviação.

Henrique Bisco, estudante do quarto ano de engenharia aeronáutica e capitão do time Adelphi, relata que alguns integrantes chegam a permanecer até seis horas por dia no local, dedicados aos projetos e acompanhando o movimento das aeronaves. “É uma vivência muito bacana. Quando um avião pousa ou decola na pista, nós paramos o nosso trabalho para acompanhar. Isso naturalmente é bastante atrativo para quem faz o curso de aeronáutica, mas também de telecomunicações”, afirma.

Para Bisco, participar das competições de aerodesign também cria oportunidades de networking, já que o público costuma reunir representantes de outras faculdades e empresas do setor. “As competições também são espaços em que a gente pode conversar e se conhecer melhor. Nesse ambiente, às vezes aparecem algumas oportunidades de estágio para os alunos”, conta. A Embraer, principal empresa de aviação do país, é uma das apoiadoras do SAE Brasil AeroDesign.

Na visão do professor Calache, ter uma estrutura como o Hangar Tecnológico e participar de iniciativas práticas como a Equipe Adelphi Aerodesign ajuda a despertar o interesse pelo curso e facilita a construção dos primeiros contatos profissionais. Ele ressalta, porém, um efeito menos tangível: a criação de vínculos entre os estudantes. Segundo o docente, na FESJ é frequente que ex-alunos retornem ao câmpus para acompanhar os projetos e apoiar os mais novos nas competições. “Isso traz aos alunos um senso de pertencimento. Eles estão no hangar colocando a mão na massa e fazem o trabalho por amor, felizes por ver aquilo sendo construído. Isso faz toda a diferença”, relata.

Informações da Unesp

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