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Inteligência artificial decifra os pergaminhos de Herculano no Desafio Vesúvio

Pesquisador analisa pergaminho antigo com tablet e laptop em mesa de madeira, em sala iluminada.

Por quase dois mil anos, uma biblioteca completa esteve diante dos olhos da pesquisa - e, ainda assim, inacessível. Reduzidos a rolos negros após a erupção do Monte Vesúvio em 79 d.C., os pergaminhos encontrados em Herculano começam, enfim, a expor o que guardavam, graças ao encontro entre técnicas avançadas de imagem, inteligência artificial e análise especializada.

Como a inteligência artificial conseguiu ler os pergaminhos?

O calor e as cinzas transformaram os manuscritos em blocos carbonizados, extremamente frágeis e impraticáveis de desenrolar: qualquer tentativa física poderia destruí-los. Para contornar esse limite, equipes científicas recorreram a um síncrotron, capaz de gerar imagens em altíssima resolução do interior dos rolos e captar diferenças quase imperceptíveis entre a tinta e o papiro queimado.

A partir dessas camadas digitalizadas, algoritmos de inteligência artificial passaram a identificar traços compatíveis com letras e a “desenrolar” virtualmente as superfícies antes enroladas. Em seguida, papirologistas conferiram os caracteres, organizaram o material em grego antigo e tornaram possível a leitura sem encostar nas estruturas delicadas.

Dois manuscritos revelaram textos extensos

Esses avanços se inserem no Desafio Vesúvio, uma iniciativa internacional criada para acelerar a leitura digital dos pergaminhos preservados em Herculano. Em junho de 2026, os pesquisadores comunicaram a recuperação de cerca de 1,5 metro de texto contínuo no manuscrito PHerc. 1667, distribuído ao longo de 20 colunas.

Outro rolo, identificado como PHerc. 172, trouxe mais de 70 colunas. Brent Seales, cientista da computação da Universidade de Kentucky e cofundador do projeto, observou que os textos sempre estiveram preservados do ponto de vista físico, porém permaneciam fora de alcance no plano intelectual - e ressaltou o valor de combinar imagens, IA e investigação acadêmica.

O que foi descoberto no PHerc. 1667?

A caligrafia e outras características internas sugerem que o pergaminho pode ter sido produzido entre os séculos 3 e 2 a.C., o que o coloca entre os itens mais antigos dessa coleção. Pelo que se depreende até agora, o conteúdo apresenta uma discussão de matriz estoica sobre ética, comportamento humano e a forma como as pessoas conduzem suas escolhas.

Entre os sinais que chamaram a atenção dos especialistas estão referências que podem aproximar o documento dos primeiros círculos do estoicismo. Os principais pontos identificados incluem:

  • Menção a Aristocreonte, sobrinho e discípulo do filósofo Crisipo.
  • Discussões sobre conduta humana alinhadas à tradição filosófica estoica.
  • Datação anterior a Filodemo, autor predominante na biblioteca de Herculano.

Por que o possível vínculo com Crisipo é importante?

Crisipo figura entre os pensadores mais decisivos do estoicismo antigo e teve papel central na sistematização das ideias da escola. Embora tenha produzido uma obra vasta, poucos textos chegaram até o presente. Por isso, qualquer documento associado ao filósofo, aos seus discípulos ou ao meio em que suas propostas circulavam pode ajudar a preencher lacunas históricas de grande peso.

A papirologista Federica Nicolardi, da Universidade de Nápoles Federico II, explicou que parte do PHerc. 1667 chegou a ser aberta fisicamente na década de 1980. No entanto, as camadas sobrepostas impediram que a escrita fosse distinguida. A leitura virtual, por sua vez, converteu um manuscrito antes classificado com legibilidade zero em um novo material de referência para o estudo da filosofia antiga.

A descoberta pode transformar o estudo da Antiguidade

Outro progresso envolveu o pergaminho PHerc. 139, que trouxe à tona uma referência ao oitavo livro de Sobre os Deuses, de Filodemo. Esse dado indica que o tratado tinha pelo menos oito volumes e levou os pesquisadores a planejar uma nova análise de outros documentos que podem pertencer à mesma coleção filosófica.

Mais de 600 pergaminhos de Herculano permanecem lacrados, possivelmente abrigando obras que desapareceram de todas as demais fontes. A cada trecho decifrado, cresce a chance de recuperar ideias perdidas por séculos. O cenário pede investimento, cooperação e pressa: abrir digitalmente essa biblioteca significa devolver ao mundo uma parte esquecida da memória humana.

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