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Planta rara em Nevada, astragalo-de-três-cantos, cresce de 12 para 93 perto do Projeto Solar Gemini

Mulher analisando planta no solo de área aberta com painéis solares ao fundo e livro aberto.

Uma planta rara do deserto em Nevada, o astragalo-de-três-cantos, passou de apenas 12 exemplares conhecidos para 93 depois que um grande projeto de energia solar foi instalado nas proximidades.

Em vez de “raspar” o terreno e remover tudo, o empreendimento foi planejado para permitir que a espécie não só persistisse, como também aumentasse em número.

Contagens na areia

No Projeto Solar Gemini, perto de Las Vegas, no Deserto de Mojave, levantamentos acompanharam o astragalo-de-três-cantos - uma flor silvestre pequena, rasteira, da família das leguminosas - antes das obras e novamente mais tarde.

Com base nesses mapas, a ecóloga Tiffany J. Pereira, do Instituto de Pesquisa do Deserto (DRI), seguiu o rastro do aumento ao longo das fileiras de painéis.

No artigo, Pereira registrou 12 plantas de astragalo-de-três-cantos antes da construção e, depois que a instalação entrou em operação em 2024, 93.

Segundo o estudo, o salto veio de uma estratégia que manteve o solo e as sementes no lugar - e não de irrigação adicionada ou do transplante de plantas.

Conheça o astragalo-de-três-cantos

Por crescer bem rente ao chão, o astragalo-de-três-cantos quase não aparece, a menos que as chuvas de inverno cheguem no momento certo.

Botânicos o classificam como Astragalus geyeri var. triquetrus, e a espécie se sustenta graças a um banco de sementes: sementes armazenadas no solo, “em espera”, prontas para germinar em condições favoráveis.

Em Nevada, a planta é listada como Criticamente Ameaçada e Totalmente Protegida, o que significa que qualquer perturbação do terreno pode eliminar uma mancha inteira.

Por isso, as contagens no Gemini vão além de uma curiosidade: elas indicam que um projeto pode ser executado sem esmagar uma espécie rara.

Sombra altera a humidade

Abaixo dos painéis, a sombra em movimento reduziu a temperatura do solo e diminuiu a velocidade da evaporação após cada chuva.

Essa humidade extra formou um microclima - um pequeno bolsão com temperatura e humidade diferentes - em grande parte do campo solar.

Fora da cerca, vento e sol castigavam mais, fazendo com que plantas próximas perdessem água mais depressa e se mantivessem menores.

Sombra demais, porém, também pode travar o crescimento, o que ajuda a explicar por que as plantas quase não surgiram nas áreas mais escuras.

Onde as plantas apareceram

Na busca de 2024, os técnicos encontraram a maior parte dos exemplares nas faixas abertas entre as fileiras de painéis.

Esses corredores recebiam sombra parcial e mais escoamento superficial, permitindo que as plântulas tivessem luz suficiente enquanto o solo permanecia húmido por mais tempo.

“Noventa e quatro por cento das plantas de astragalo-de-três-cantos encontradas no Gemini cresceram nos espaços entre painéis”, escreveu Pereira.

Se levantamentos futuros confirmarem o mesmo padrão, os projectistas podem ter de elevar os painéis ou ampliar os vãos para proteger o habitat.

Plantas maiores, mais frutos

Dentro da área do parque solar, as plantas ficaram mais altas e mais largas, e cada uma carregou muito mais flores e frutos.

Com mais humidade disponível, os caules conseguiram continuar alongando-se durante a primavera, o que deu às flores mais tempo para virar vagens com sementes.

Plantas marcadas pela equipa do DRI começaram a frutificar quase 3 semanas mais cedo e produziram oito vezes mais flores e dez vezes mais frutos.

“A sobrevivência entre as duas populações, no entanto, não foi significativamente diferente”, escreveu Pereira ao comparar plantas marcadas dentro e fora da área do empreendimento.

Sementes feitas para esperar

A explosão de novos frutos só é relevante se as sementes aguentarem calor, passagem do tempo e animais que se alimentam delas até que as chuvas retornem.

Trabalhos em laboratório apontaram 100% de viabilidade das sementes e confirmaram dormência física: uma casca dura que impede a entrada de água até ser danificada.

Quando os técnicos fizeram um pequeno corte na casca, as sementes absorveram água rapidamente - um comportamento que combina com a estratégia desértica de esperar por tempestades raras.

Com sementes viáveis ainda presentes no solo, uma única primavera chuvosa pode reabastecer os anos seguintes, mesmo quando plantas adultas morrem.

Construir sem retirar a camada de solo

Antes de erguer qualquer painel, as equipas costumam escolher entre preservar a superfície do deserto ou nivelá-la.

Muitos empreendedores ainda recorrem ao corte e nivelamento - um método que remove a vegetação e deixa o terreno plano - por parecer mais previsível.

No Gemini, optou-se por alternativas de menor impacto e por limitar a terraplenagem, fazendo com que as máquinas contornassem a vegetação em vez de raspar tudo.

Esse cuidado manteve os caminhos naturais de drenagem em funcionamento, algo crucial quando a água da chuva corre com força por um canteiro no deserto.

Ecovoltaica na prática

No sector de energias renováveis, a ecovoltaica - o desenho de usinas solares para apoiar o habitat nativo - trata a vegetação como parte do próprio projecto.

No terreno, a cobertura viva ajuda a arrefecer o solo e a mantê-lo no lugar, o que pode reduzir poeira e desacelerar a erosão.

Mais plantas também alimentam microrganismos do solo e aumentam o armazenamento de carbono no subsolo, enquanto as flores oferecem alimento a polinizadores dentro das cercas.

Manter o habitat a funcionar não elimina o uso da terra, mas pode impedir que uma área solar se transforme em solo morto.

Lições do astragalo-de-três-cantos

Um único ano favorável pode “valorizar” qualquer projecto no deserto, porque é a chuva que decide quando as sementes escondidas acordam e crescem.

Pereira e a equipa do DRI acompanharam as plantas por apenas uma estação de crescimento, e o levantamento de 2024 cobriu uma área bem menor do que o de 2018.

O monitoramento de longo prazo precisa observar anos secos e zonas de sombra profunda, onde a baixa emergência pode reduzir o habitat utilizável.

Um estudo federal projectou que a energia solar pode fornecer 40% da electricidade dos EUA até 2035, o que aumenta a importância de escolher bem onde e como instalar.

A explosão do astragalo-de-três-cantos no Gemini sugere que painéis solares podem acrescentar energia sem necessariamente remover vida - quando a obra respeita o solo e o momento certo.

Projectos futuros podem aproveitar essa abordagem, mas precisarão de séries longas, atravessando anos húmidos e secos, para demonstrar que o efeito se mantém.

Foto: Tiffany Pereira

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