Da decadência à valorização
Há 15 anos, viviam algo como 50 pessoas ao longo dos 1,1 km da Avenida da Liberdade. Em sua maioria, eram moradores idosos, instalados em imóveis antigos e, segundo fontes do mercado, muitos deles em más condições.
Quando a prefeitura e os demais órgãos oficiais ligados ao urbanismo e ao patrimônio - em especial a então Direção-Geral do Património Cultural - passaram a abrir espaço para obras de recuperação e reabilitação de edifícios antigos, o principal eixo urbano da capital entrou no radar do público de maior renda. Em 2020, os novos residentes na Avenida já chegavam a perto de 700.
Moradores e valores por metro quadrado na Avenida da Liberdade
Hoje, apesar de as fontes do mercado ouvidas pelo Expresso não apresentarem um número fechado, a estimativa é de que vivam mais de mil pessoas na rua mais cara do país. Ali, o preço por metro quadrado fica, em média, na casa de €11.487, segundo números levantados pela Confidencial Imobiliário - embora, em situações específicas, possa saltar para €18 mil/m2, sobretudo em imóveis cuja fachada principal dá diretamente para a Avenida.
Em 2020, já eram perto de 700 os novos habitantes da Avenida da Liberdade
Quem está comprando imóveis na artéria lisboeta
Entre os novos proprietários dessa avenida de Lisboa, o grupo mais evidente é o de nacionalidade chinesa (ver gráfico): foram 280 imóveis adquiridos ali ao longo dos últimos dez anos. Na sequência aparecem franceses e norte-americanos, com 224 e 188 apartamentos, respectivamente. A apuração é da Confidencial Imobiliário e considera a Freguesia de Santo António, que, na prática, coincide quase totalmente com a área geográfica de toda a Avenida da Liberdade e de algumas ruas transversais.
Escassez de imóveis novos e mudanças no ritmo de valorização
Para Rafael Ascendo, fundador e sócio da Porta da Frente Christie’s, o entrave atual é que já não existem unidades novas à venda na Avenida da Liberdade. A consultoria imobiliária, especializada no segmento de luxo e com atuação há anos nesse trecho lisboeta, mantém hoje em seu portfólio apenas dois apartamentos novos, localizados em uma das ruas transversais. O mais caro custa €2,1 milhões, com valor por m2 na faixa de €13 mil.
O executivo ressalta, porém, que também tem um apartamento à venda na Avenida, “mas é uma revenda”, e os preços pedidos ficam perto de €18 mil/m2. “Tivemos um grande boom de procura há cerca de três/quatro anos e, agora, a tendência é para a estabilização. No entanto, como o espaço físico da Avenida não pode crescer, continua a haver valorizações sobre os preços iniciais dos imóveis. Mas passámos claramente de crescimento anual de 20%, nos preços das casas, para variações de 5% a 10%.”
Mesmo assim, Rafael Ascenso frisa que Lisboa (na Avenida) ainda está bem abaixo dos valores vistos em áreas equivalentes de Madrid (€20 mil/m2 no bairro de Salamanca) ou dos €30 mil, em média, nos quarteirões mais caros de Paris. Já na comparação com Londres, a diferença é maior: €50 mil, em média na capital inglesa, podendo chegar, nas zonas mais caras, aos €80 mil/m2.
A leitura da Confidencial Imobiliário sobre a evolução recente
Ricardo Guimarães, diretor da base de dados Confidencial Imobiliário, concorda com a avaliação de Rafael Ascenso e acrescenta que, mesmo em um edifício novo prestes a entrar no mercado - não na Avenida da Liberdade, mas nas imediações da Praça da Alegria - os valores estão em €11,8/m2. “Não há nenhum edifício novo em mercado na própria Avenida”, confirma o especialista.
Ao revisitar a trajetória do mercado residencial na principal artéria do país, Ricardo Guimarães afirma que “a reabilitação urbana e a procura internacional viabilizaram a Avenida da Liberdade. Sem estes dois fatores, ainda tínhamos prédios a cair na zona mais nobre da capital”.
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