Uma tripulação de um cargueiro Boeing 747-8 viveu momentos de tensão no Texas depois que a aeronave seguiu muito além do ponto previsto e chegou perto de ficar sem combustível.
O episódio envolveu um 747-8F da Silk Way Airlines, do Azerbaijão - uma das maiores companhias cargueiras da Ásia Central, com operação frequente no Brasil, além de voos para outros mercados nas Américas e também na Europa.
O desvio inesperado rumo a Dallas (Texas)
O jumbo realizava um voo regular de carga entre a Cidade do México (Aeroporto Felipe Ángeles) e Houston, no Texas. Ainda assim, por razões que não foram totalmente esclarecidas, o avião prosseguiu para o norte do estado e se aproximou de Dallas sem iniciar a curva para leste em direção a Houston - cidades separadas por 380 quilômetros.
Há a suspeita de que o plano de voo tenha sido preenchido incorretamente, com o destino inserido como o Aeroporto Love Field, em Dallas, um aeroporto menor de código KDAL. Essa indicação aparece em aplicativos de rastreamento como AirNavRadar e FlightRadar24, que consultam diretamente o sistema oficial de plano de voo, além de dados de mensagens (ACARS) da aeronave.
Emergência de combustível e a conversa com o controle
Quando o 747-8 já se aproximava da região metropolitana de Dallas, os pilotos declararam PAN PAN, informando uma emergência por baixo combustível - algo que, num primeiro momento, não teria sido entendido pelos controladores. Depois de uma nova declaração, o controlador de Dallas perguntou: “Você está em emergência e precisa pousar agora no Aeroporto Fort Worth? O que você precisa? Diga suas intenções“.
Um dos pilotos da Silk Way respondeu: “Nós precisamos pousar o mais rápido possível na pista 26R, estamos com pouco combustível, nós falamos PAN PAN três vezes“, o que surpreendeu o controlador: “Senhor, você não está nem perto de Houston agora. Se você quer chegar lá, quanto de combustível você tem? Por que você está centenas de milhas distante?“.
De forma inesperada, o piloto disse: “Temos apenas 6 mil“, sem especificar se em quilos ou libras. Um piloto de Boeing 747-8 que voa por uma companhia aérea americana confirmou ao AEROIN que os jatos da Silk Way utilizam a unidade em quilos e que 6 toneladas permitiriam pouco mais de meia hora de voo na altitude em que o Jumbo seguia - insuficiente para alcançar Houston.
Esse mesmo comandante relatou, inclusive, já ter voado jumbos que eram da própria Silk Way e foram adquiridos por sua empresa atual, e afirmou ter ficado alarmado com o áudio, por considerar que a companhia asiática mantém alto padrão de segurança e aderência a procedimentos. Se, por outro lado, os pilotos estivessem falando de 6 mil libras (2.700 kg), o quadro seria ainda mais crítico: restariam menos de 20 minutos de autonomia.
O controlador também reconheceu a seriedade do caso e disse: “Você não tem combustível suficiente para chegar a Houston, você quer desviar para o Aeroporto Dallas-Fort Worth?“, recebendo como resposta: “Sim, nós queremos ir para Houston, nós estamos aptos para Houston agora, queremos um atalho, por favor“.
Ainda sem acreditar no que tinha ouvido, o controlador pediu que a tripulação confirmasse “6.000 libras de combustível a bordo“, o que foi confirmado pelos pilotos, novamente sem detalhar a unidade. Em seguida, o controlador informou: “Ok, estamos declarando emergência para o seu voo, mantenha 11.000 pés e voe no rumo 270, você está sendo desviado para o Aeroporto Fort Worth“.
Mesmo assim, o piloto da Silk Way ainda questionou: “Confirme, agora temos que ir para Dallas-Fort Worth?“, e o controlador confirmou, iniciando as instruções para a aproximação e pouso na pista 18R - o que ocorreu em segurança.
Plano de voo, FMS e a pista “26R”
Um ponto curioso é que a cabeceira 26R não existe em nenhum aeroporto de toda a região metropolitana de Dallas - incluindo aeroportos internacionais, bases aéreas e também terminais executivos e privados menores. Em contrapartida, essa cabeceira existe no Aeroporto Intercontinental George Bush, em Houston, que era o destino originalmente apontado pela tripulação.
Pelo contexto do diálogo entre pilotos e controladores, somado às informações obtidas via ACARS e pelas plataformas de rastreamento, é provável que o plano de voo e a rota carregada no computador de navegação (FMS) estivessem direcionados ao Aeroporto Dallas Love Field, apesar de a escala da tripulação, o abastecimento e a carga estarem planejados para Houston.
Isso explicaria a menção à pista 26R, possivelmente porque os pilotos estavam com a carta de aproximação correspondente aberta. O que permanece sem explicação é como não perceberam que o avião seguia numa direção diferente, mais ao norte, e também não notaram as interações com o controle, que estariam no sentido contrário.
O fato de os controladores também não terem identificado nada anormal até o momento da declaração de emergência reforça a hipótese de que o plano de voo no sistema estava, de fato, para Dallas e que o Jumbo simplesmente seguia o trajeto previsto. Caso contrário, o voo poderia ser tratado como sujeito a algum tipo de interferência ilícita e, como a área abriga bases militares e a fábrica do caça F-35, seria esperada uma interceptação rápida de uma aeronave fora de rota.
Comunicação após o pouso e o que aconteceu depois
Em um contato posterior ao pouso com o controlador, o piloto da Silk Way afirmou que “a caminho de Houston nos vetoraram (direcionaram) várias vezes, e começamos a nos questionar por que estão nos mandando para o Love Field, que não é um aeroporto adequado para a performance da nossa aeronave, e começamos a ficar sem combustível, por isso declaramos PAN PAN“.
O Aeroporto Love Field é a base histórica da Southwest Airlines e, apesar de ter pistas menores que o Dallas-Forth Worth, uma delas tem 2.682 metros de extensão e já recebeu 747 de gerações anteriores. O aeroporto chegou a ter operações regulares para o Havaí com o 747-100 da Braniff, além de ter recebido o 747-200 (VC-25A) usado atualmente como Air Force One e também o 747-400 do rei da Arábia Saudita. Em tese, um 747-8 poderia pousar ali sem grandes dificuldades.
Já na troca de mensagens com o centro de operações da Silk Way via ACARS, ainda durante o voo, os pilotos teriam informado que o controle estava vetorando o 747-8 para uma rota distinta por conta de “excesso de tráfego em Houston“, mas que o destino “ainda é Houston (o destino) até o momento“. A interação completa entre pilotos e controladores pode ser vista a seguir:
Uma barreira linguística pode ajudar a entender a dificuldade de compreensão, já que os pilotos podem ter interpretado a vetoração para Dallas como consequência de sequenciamento em Houston, quando, na prática, os controladores apenas direcionavam o voo para onde ele constava como programado - ao menos no sistema de plano de voo.
Após pousar em Dallas-Fort Worth, o 747-8 permaneceu no solo por duas horas e então decolou para Houston, onde aterrissou quatro horas depois do horário originalmente previsto. Também é possível conferir a reconstituição da trajetória do voo na janela abaixo:
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