Uma tumba real foi encontrada com preservação suficiente para se compreender o seu desenho e a sua organização, mas o rei que ela deveria homenagear desapareceu dos registros históricos.
A descoberta reposiciona um capítulo violento e fragmentado do Egito antigo como um período em que o poder era afirmado, perdido e reescrito com mais frequência do que os documentos conseguiam sobreviver.
A Montanha de Anúbis oferece pistas
Escavações sob o deserto, perto da antiga cidade de Abydos, no sul do Egito, trouxeram à luz uma câmara funerária de calcário mantida em profundidade, subterrânea. Pelo porte e pela planta, a construção é inconfundivelmente associada à realeza.
Josef Wegner e a sua equipa registraram a arquitetura do espaço e a sua posição no terreno. A partir daí, reconstruíram como aquela tumba se encaixava num cemitério utilizado por reis durante uma fase de colapso político.
A datação aponta para um momento em que governantes rivais dominavam regiões diferentes do Egito. Em meio à instabilidade, esses soberanos deixaram monumentos reais sem que houvesse linhas de sucessão estáveis.
Esse mesmo cenário ajuda a explicar por que a tumba permanece como prova material de realeza, enquanto a identidade do rei, por sua vez, continua sem solução.
Dentro de uma tumba real saqueada
Os arqueólogos acederam ao interior por uma entrada selada com reboco e localizaram uma sala principal de calcário, ladeada por câmaras menores escavadas no solo.
Acima dos compartimentos, os construtores ergueram abóbadas de tijolo de barro (adobe). A curvatura fazia o peso ser distribuído para os lados, ajudando a manter os tetos de pé.
Cinco tetos abobadados elevavam-se a cerca de 16 pés (4,9 metros), e a escala do conjunto indicava que o sepultamento pertencia a alguém tratado como rei.
A formalidade do plano permitiu restringir o intervalo de datas e direcionou a análise para uma necrópole real onde outros governantes também foram enterrados.
Nomes de faraós apagados no reboco
Na entrada, a alvenaria de tijolos teria exibido o nome do rei, acompanhado por figuras pintadas de Ísis e Néftis, as duas deusas-irmãs protetoras.
Saqueadores removeram o reboco, arrancando os hieróglifos - sinais pictográficos usados para formar palavras e nomes - das inscrições do portal.
"O nome dele estava nas inscrições, mas não sobreviveu às depredações de antigos saqueadores de tumbas", disse Wegner.
Com o nome destruído, os investigadores confrontaram a localização e o estilo arquitetónico da tumba com sepultamentos de governantes como Senaiib e Paentjeni, conhecidos por monumentos nas proximidades.
Um reino dividido
Os historiadores chamam este período de Segundo Período Intermediário, quando dinastias concorrentes partilharam o Egito, em vez de uma única corte controlar todo o território.
No delta do Nilo, os hicsos - governantes oriundos da Ásia Ocidental que dominaram o norte do Egito - controlavam portos estratégicos e forçavam reis rivais a negociar.
"O Egito estava fragmentado com até quatro reinos rivais, incluindo os hicsos do delta do Nilo", disse Wegner.
De 1640 a.C. a 1540 a.C., esse mapa instável produziu reinados curtos e registros irregulares. Por isso, alguns reis parecem ter desaparecido por completo da história.
A Dinastia de Abydos ganha forma
Cerâmica, inscrições e plantas de tumbas reais têm sustentado a hipótese da chamada Dinastia de Abydos: reis locais sediados na região de Abydos, durante cerca de um século de governo fraturado.
Em 2014, os escavadores localizaram, na mesma necrópole - um grande cemitério construído para a realeza -, a tumba do rei Seneb-Kay.
O esqueleto, danificado, e as marcas de armas sugeriam uma morte violenta; ao mesmo tempo, o próprio sepultamento confirmou que dinastias menores ainda reivindicavam estatuto de faraó.
Ao posicionar Seneb-Kay entre outros governantes enterrados ali, os investigadores estabeleceram um quadro que tornou a nova tumba, ainda sem nome, mais fácil de interpretar.
Enterrada no complexo de Neferhotep
Os construtores implantaram a tumba recém-identificada dentro do complexo funerário maior de Neferhotep I, um rei anterior cujo monumento ainda dominava a encosta.
Essa decisão associou o governante desconhecido a uma paisagem sagrada já consolidada, porque muros e pátios partilhados comunicavam legitimidade a quem se aproximasse do local.
O desenho da câmara também retomava padrões mais antigos do Médio Império, ao mesmo tempo que antecipava soluções vistas em tumbas reais posteriores dessa mesma fase conturbada.
Quando um rei construía junto ao monumento de outro rei, o próprio sepultamento tornava-se um indício de como a autoridade era reivindicada num Egito sem unidade.
À procura do dono da tumba real
Para estreitar hipóteses sobre quem foi sepultado ali, os investigadores compararam as abóbadas de tijolo e a disposição dos ambientes com sepultamentos reais próximos.
Também procuraram fragmentos de reboco, cerâmica e selos de argila, já que nomes reais muitas vezes circulavam em etiquetas administrativas carimbadas.
As equipas mapearam ainda como a câmara se encaixava em paredes mais antigas, porque construtores posteriores por vezes reabriam passagens e deixavam marcas de ferramentas.
Até que surja um nome inequívoco, qualquer proposta de identificação permanece provisória, destacando como registros reais podem desaparecer com facilidade.
Trabalho lento na areia
Escavar numa necrópole real exige avanços pequenos, pois paredes de tijolo de barro podem desmoronar quando vibrações soltam os grãos ao redor.
As equipas registaram cada nível de piso e cada borda de portal, uma vez que uma pá colocada no lugar errado pode destruir evidências que não voltam.
"O trabalho em cemitérios reais é lento e meticuloso, então leva um tempo para haver resultados", disse Wegner.
Esse ritmo abre a possibilidade de novas descobertas nas proximidades, mas também implica anos de financiamento, autorizações e conservação contínua.
Por que esta tumba real importa
Os investigadores consideraram esta tumba a maior e a mais antiga conhecida até agora para essa dinastia local, mesmo sem que o seu proprietário tenha sido nomeado.
Quando uma tumba é datada, o tipo de alvenaria e os estilos de pintura funcionam como marcadores, ajudando a ordenar sepultamentos vizinhos.
Essa ordenação é relevante porque os governantes de Abydos situam-se entre os construtores de pirâmides e os enterramentos posteriores no Vale dos Reis, ligando duas tradições funerárias.
Com outra tumba real anunciada em 2025, o número crescente de achados também aumentou a pressão para proteger os sítios antes que saqueadores regressem.
O que vem a seguir
Em conjunto, a arquitetura da câmara, os textos de entrada danificados e a posição ao lado de monumentos mais antigos descrevem um intervalo ausente no governo egípcio.
Escavações futuras ainda podem revelar um nome legível, mas a narrativa já evidencia a rapidez com que o poder pode ascender e, logo depois, desaparecer.
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