A Diretoria Principal de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia (GUR) publicou uma análise na qual sustenta que a aviação civil da Rússia está passando por uma degradação acelerada, atribuída às sanções internacionais, às dificuldades para manter aeronaves ocidentais e ao avanço lento de projetos nacionais.
Frota, manutenção e sanções na aviação civil russa
De acordo com o órgão ucraniano, uma parte relevante da frota civil russa já ultrapassou o limite de vida útil certificado pelos fabricantes e, pelos parâmetros internacionais do setor, esses aviões deixaram de ser considerados aeronavegáveis. O GUR argumenta que, após a invasão em larga escala da Ucrânia e a imposição de sanções, as companhias aéreas russas perderam o acesso ao suporte técnico autorizado de fabricantes ocidentais, o que impediria a extensão oficial da vida útil dessas aeronaves.
O relatório afirma ainda que empresas russas passaram a executar reparos e rotinas de manutenção sem as certificações exigidas. Segundo a análise, parte das peças de reposição estaria sendo fabricada dentro do país sem seguir os padrões tecnológicos definidos pelos fabricantes originais e com materiais que não cumpririam as especificações técnicas. Já os componentes que não seriam passíveis de produção na Rússia estariam chegando por meio de países terceiros, incluindo itens de alta tecnologia para motores e também componentes de cabine.
Para o GUR, o fato de muitas aeronaves seguirem voando se explicaria sobretudo pela confiabilidade dos projetos originais e pela qualidade de componentes produzidos por fabricantes ocidentais, além das manutenções certificadas realizadas antes de as sanções entrarem em vigor.
Voos internacionais, “canibalização” e risco de apreensão
A inteligência ucraniana diz que as companhias aéreas russas enfrentam fortes restrições para operar rotas internacionais. Na avaliação do GUR, sem se expor ao risco de apreensão de aeronaves no exterior, os operadores conseguiriam voar internacionalmente com aproximadamente 400 aviões de fabricação estrangeira e menos de 150 aeronaves russas ou soviéticas. Para mitigar esse risco, o relatório aponta que operadores russos estariam planejando recorrer a empresas de leasing de fachada.
O documento também chama atenção para a expansão da prática de “canibalização”, em que aviões são desmontados para abastecer outros com peças de reposição. Segundo o GUR, já houve casos em que aeronaves novas e totalmente montadas foram desmembradas para manter cerca de uma dúzia de outros aviões em operação.
Programas até 2030, atrasos industriais e infraestrutura aeroportuária
Como forma de diminuir a dependência da tecnologia aeronáutica ocidental, a Rússia lançou um programa de desenvolvimento da aviação até 2030. O plano prevê a produção de 994 aeronaves civis e 765 helicópteros, com orçamento estimado em US$ 12 bilhões. Ainda assim, de acordo com a inteligência ucraniana, existiriam questionamentos até dentro da própria Rússia sobre a eficiência na aplicação desses recursos.
O GUR afirma que, após perder acesso às tecnologias ocidentais, a indústria aeronáutica russa não teria conseguido desenvolver componentes capazes de cumprir padrões internacionais. O efeito seria uma sequência de atrasos tanto na certificação quanto na produção em série de diversos programas.
Entre os casos mencionados está o MC-21, concebido para rivalizar com as famílias Airbus A320 e Boeing 737. Segundo o relatório, problemas técnicos e entraves ligados ao motor PD-14 levaram o fabricante a reduzir a capacidade do avião de 210 para 163 passageiros, o que exigiria um novo processo de certificação.
O relatório descreve um cenário semelhante para o motor PD-8, projetado para equipar o Sukhoi Superjet, aeronave idealizada para competir com a família de jatos brasileiras E-Jet da Embraer. O documento também declara que a Rússia teria desistido de comprar novos Il-96, apesar de um programa governamental prever, originalmente, a aquisição de 14 unidades.
Outro ponto levantado envolve a substituição dos Antonov An-2 e An-24/26. Segundo o GUR, sem a participação da fabricante ucraniana Antonov, a indústria russa não teria conseguido criar substitutos que cumprissem as mesmas funções.
O LMS-901 Baikal, desenvolvido para tomar o lugar do An-2, não teria reproduzido uma característica central do modelo: operar com segurança em pistas de terra não preparadas. Já o Il-114-300, planejado como substituto dos An-24 e An-26, poderia voar apenas em pistas pavimentadas por causa da baixa posição das hélices e do uso de materiais que o relatório considera inadequados, o que aumentaria o risco de falhas estruturais.
Além dos gargalos técnicos, o documento acrescenta que a própria capacidade industrial seria um limitador. Hoje, conforme a inteligência ucraniana, as fábricas russas entregariam cerca de 26 aeronaves por ano, bem abaixo do volume necessário para cumprir as metas estabelecidas para 2030.
O GUR também sustenta que todas as aeronaves modernas produzidas na Rússia sofrem impactos da falta de acesso a softwares ocidentais. Aeronaves estrangeiras, por sua vez, teriam deixado de receber atualizações de software e acesso a sistemas digitais de navegação aeronáutica. O órgão ainda cita como fator adicional de risco a interferência sistemática nos sinais de GPS realizada pelas próprias forças militares russas.
A análise estende as críticas à infraestrutura: segundo o relatório, 158 aeroportos - quase dois terços da rede aeroportuária russa - estariam operando fora de requisitos de segurança, e outros 134 precisariam de reconstrução ou de reformas de grande porte.
Ao encerrar, o GUR conclui que a aviação civil russa segue em rápida deterioração em função das sanções internacionais, do isolamento tecnológico, da perda de capacidade industrial e do envelhecimento da frota. Na leitura da inteligência ucraniana, esse conjunto de fatores levaria as companhias aéreas russas a reduzir gradualmente padrões de manutenção e de operação, elevando os riscos para passageiros.
O governo do país invasor não comentou as alegações apresentadas pelo GUR. As informações divulgadas refletem a avaliação da inteligência ucraniana e não puderam ser verificadas de forma independente.
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