Sob as praças mais movimentadas de Roma, um aqueduto antigo ainda em operação, um estádio de atletismo soterrado e corredores revestidos de ossos permaneceram preservados - e acessíveis para quem sabe onde procurar.
Essa Roma em nível inferior mudou a forma como o visitante pode vivenciar a cidade, transformando um destino superlotado num cenário em camadas, em que o passado continua a funcionar abaixo do asfalto.
Sob o centro da cidade
Escadas escondidas dentro de igrejas, lojas de departamento e pátios discretos levam diretamente a túneis, santuários e salas abandonadas que ainda ocupam o mesmo solo da Roma moderna.
Ao registrar esses ambientes, Tony Perrottet mostrou como aquedutos preservados, bases de estádios e passagens de antigas pedreiras continuam existindo sob a cidade atual, abaixo do trânsito diário e das vitrines do comércio.
Em diversos pontos, canais de água ainda ativos e arcos de alvenaria que seguem de pé foram mantidos no lugar - em vez de reconstruídos -, o que mantém a infraestrutura antiga literalmente incorporada à vida contemporânea.
O acesso segue restrito por causa de passagens estreitas e superfícies frágeis, um limite que ao mesmo tempo protege o que restou e ajuda a explicar por que a cidade acima continua absorvendo a maior parte das multidões.
Roma durante a temporada do Ano Jubilar
Um calendário oficial anual da cidade ajuda a entender por que a circulação se torna mais apertada no centro de Roma durante o Ano Jubilar, um ano santo católico realizado a cada 25 anos.
Com obras nas ruas e áreas de segurança se acumulando, turistas e moradores acabam empurrados para menos calçadas, e os gargalos ficam mais severos.
"O centro histórico está tão lotado agora que até os romanos desistiram de ir para lá", disse Perrottet.
Descer abaixo do nível da rua não faz a multidão desaparecer, mas pode trocar uma tarde longa de espera por deslocamento.
O aqueduto vivo de Roma
Na Roma antiga, a água continuava correndo porque os aquedutos - canais que transportam água principalmente pela gravidade - levavam a vazão de nascentes em colinas distantes.
Hoje, um aqueduto antigo sobrevivente ainda conduz água fresca até uma fonte chamada Fonte de Trevi, tornando-se o único entre os 11 grandes canais de água originais de Roma que permanece em funcionamento.
Trechos longos sob o solo protegeram o canal contra danos; em contrapartida, essa decisão deixou a maior parte do percurso escondida atrás de portas trancadas nos dias atuais.
A visita é limitada porque corredores estreitos e água corrente podem desgastar a pedra, sobretudo quando grupos tentam se cruzar.
A arena enterrada de Roma
A Piazza Navona, uma praça muito frequentada no centro de Roma, preserva o formato oval porque os construtores seguiram o contorno de um estádio mais antigo.
A cerca de 15 feet (4.6 meters) abaixo do calçamento, as ruínas guardam o único estádio de alvenaria conhecido em Roma, hoje acessível apenas como sítio arqueológico subterrâneo.
Paredes, corredores e fundações das arquibancadas revelam por onde atletas entravam, enquanto a praça acima passou a abrigar mercados e a vida urbana contemporânea.
A visita transforma um ponto clássico de fotos num exemplo prático de como Roma enterra estruturas à medida que o nível das ruas se eleva.
Comércio acima de água antiga
Perto da Fonte de Trevi, o subsolo de uma loja de departamento exibe arcos antigos ao lado de araras de promoção, porque normas municipais exigiram acesso público.
"Você aperta o botão, desce lá, desce para o porão, e está lindamente preservado", disse Perrottet.
Oito arcos alinhados mostram onde o canal já corria a céu aberto antes de construções posteriores selarem tudo sob Roma.
Essa convivência mantém as ruínas à vista durante tarefas do dia a dia, mas o fluxo intenso de pessoas pode desgastar superfícies que resistiram por séculos.
Catacumbas e reaproveitamento
Algumas pedreiras subterrâneas, com o tempo, viraram locais de encontro, depósitos e, mais tarde, passagens que se conectavam a câmaras funerárias mais antigas.
Em vez de fechar esses ambientes escavados, gerações posteriores abriram vãos e instalaram escadas que ligavam as salas da pedreira às catacumbas cristãs acima.
Séculos de adaptação foram acumulando novas funções na mesma rocha talhada, convertendo áreas de extração em espaços de uso cotidiano e depois em corredores históricos.
Essas camadas de uso fazem o subsolo parecer menos um museu e mais um registro de ocupação contínua, embora a fragilidade do que restou hoje imponha limites rígidos de entrada.
Câmaras de pedreira e lagos
Na colina Célio, uma das sete colinas de Roma, os cortes de antigas pedreiras deixaram um labirinto de salas e passagens.
Mais tarde, as gerações seguintes aproveitaram os ambientes frios e úmidos como abrigo e armazenamento, já que a rocha espessa mantém a temperatura estável o ano inteiro.
As visitas guiadas costumam exigir capacete e descidas por degraus estreitos, e geralmente acontecem em italiano, o que ajuda a manter o número de visitantes baixo.
Abrigos de guerra sob Roma
Durante a Segunda Guerra Mundial, Roma cavou ainda mais fundo em busca de proteção, e alguns dos espaços mais reveladores ficam sob parques tranquilos da cidade.
Na Villa Torlonia, um parque em Roma, Benito Mussolini mandou construir o bunker e o abrigo antigás, hoje aberto a visitas com agendamento.
Paredes de concreto, portas seladas e câmaras separadas ajudavam a reduzir o impacto de explosões e a entrada de gás, mesmo quando bombas atingiam ruas próximas.
Os passeios adicionam uma camada de medo moderno às camadas mais antigas de Roma, mas os responsáveis limitam o público para manter a segurança nas rotas estreitas.
Protegendo ruínas delicadas
No subsolo, o respeito pesa ainda mais, porque a oleosidade de um simples toque pode escurecer a pedra ou soltar tinta descascando.
"Não grave seu nome, que é o que todo mundo fazia até relativamente pouco tempo atrás", disse Perrottet.
Pouca luz e umidade constante podem preservar madeira e a cor de afrescos, mas também tornam mais difícil perceber mofo e rachaduras.
Cidades que abrem esses lugares ao público encaram um dilema: aliviar a pressão das ruas cheias e, ao mesmo tempo, evitar danos a uma história frágil.
Uma Roma mais silenciosa
Ao descer sob o piso de Roma, fica claro como aquedutos, estádios, catacumbas, pedreiras e bunkers dividem o mesmo terreno em camadas.
Para o futuro, os passeios vão depender de limites cuidadosos e de reparos, porque o clima de silêncio que atrai visitantes só existe se esses ambientes continuarem intactos.
Informações de um artigo da revista Smithsonian.
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