Leões em zoológicos costumam receber comida em horários fixos, enquanto leões em vida livre lidam com uma oferta de alimento bem menos previsível.
Quando a caça dá certo, eles conseguem consumir uma refeição grande e depois passam longos períodos a repousar; quando a caça falha, podem ficar vários dias sem comer.
Em ambientes de cativeiro, a alimentação costuma seguir outra lógica: a carne pode chegar todos os dias - ou quase todos - em porções já preparadas.
Essas refeições podem cobrir as necessidades nutricionais, mas tendem a diminuir tanto o esforço físico associado à alimentação quanto as pausas longas entre refeições que fazem parte da rotina de leões selvagens.
Um experimento realizado no Monarto Safari Park, no sul da Austrália, investigou o que acontece quando a alimentação em zoológico passa a seguir um ritmo mais parecido com o natural.
Em vez de observar apenas as horas logo após a oferta de comida, a equipa acompanhou o comportamento ao longo de um ciclo completo de banquete e jejum.
Leões selvagens alternam banquete e jejum
Em geral, leões selvagens alimentam-se a cada 1,5 a 2,5 dias, embora já tenham sido registados períodos de jejum de até oito dias.
O porte corporal e a capacidade do estômago permitem que ingiram grandes quantidades de uma vez e, depois, descansem enquanto fazem a digestão.
“Wild lions don’t eat at the same time every day. They experience natural periods of feasting and fasting depending on hunting success,” disse a autora principal Lesia Hryhorenko, da Universidade de Adelaide.
“We wanted to understand how African lions in human care respond when feeding routines more closely resemble those natural patterns.”
Carcaças mudaram a rotina de alimentação
A equipa acompanhou sete leões africanos durante três meses, mas apenas três machos de nove anos receberam a nova rotina alimentar.
Outros quatro leões continuaram no esquema habitual; além disso, os grupos já apresentavam diferenças antes do início do experimento.
Ao longo das oito semanas do período experimental, os três machos receberam cerca de 200 kg de carcaças inteiras de canguru ou cabra a cada nove dias.
As carcaças permaneciam disponíveis por dois a três dias, seguidos de seis a sete dias sem alimento. Oito câmaras infravermelhas registaram vídeos de 10 segundos a cada cinco minutos, 24 horas por dia.
Com isso, foi possível mapear comportamentos diurnos e noturnos, o repouso após as refeições e os dias posteriores de jejum - em vez de limitar a observação ao momento imediatamente após a comida chegar.
Carcaças inteiras fizeram os leões alimentar-se por mais tempo
Nos dias em que havia carcaças, o tempo de alimentação subiu de uma média de 25,7 minutos por dia durante o período anterior de linha de base (antes das carcaças) para 76,4 minutos.
Os episódios de alimentação também ficaram mais frequentes, e o intervalo entre o primeiro e o último registo de alimentação chegou, em alguns casos, a três horas e 35 minutos.
“Providing whole carcasses changes much more than the nutritional content of the diet,” disse Hryhorenko.
“It gives lions the opportunity to engage in behaviors such as tearing, pulling and manipulating food over extended periods, which are important components of their natural feeding ecology.”
Leões descansaram após grandes refeições com carcaças
A mudança mais marcante após a alimentação foi no repouso. Os leões passaram muito mais tempo deitados nos primeiros três dias do ciclo - justamente quando havia acesso às carcaças - do que nos dias seguintes, já em jejum.
Ficar deitado representou 52,5% das observações entre o primeiro e o terceiro dia. Esse valor caiu para 30,4% entre o quarto e o sexto dia e para 17,0% entre o sétimo e o nono dia.
O movimento exibiu o padrão inverso. A locomoção - deslocamentos comuns de um ponto a outro - foi menor logo após a alimentação e aumentou no meio e no fim do período de jejum.
Esse desenho lembra o ritmo geral observado em leões selvagens: comer muito, descansar e, depois, movimentar-se mais à medida que o tempo passa sem uma nova refeição.
Ainda assim, o estudo apenas identificou um padrão semelhante nesse pequeno grupo em cativeiro e não demonstrou que os leões viveram o mesmo estado físico ou mental de animais em vida livre.
O andar repetitivo seguiu rotinas do dia a dia
Os investigadores também analisaram o andar repetitivo (pacing), caracterizado por percorrer reiteradamente o mesmo trajeto.
Em zoológicos, esse comportamento pode, por vezes, relacionar-se à antecipação; por isso, a equipa quis verificar se ele aumentaria de forma contínua conforme os leões ficassem mais tempo sem comer.
O pacing foi mais elevado no segundo mês de alimentação com carcaças do que no período anterior de linha de base. No entanto, não houve um aumento nítido em etapas ao longo de cada ciclo de nove dias.
Em vez disso, surgiram dois picos diários: entre nove e 10 horas da manhã e entre três e quatro horas da tarde.
Esses horários coincidiram com a chegada habitual de tratadores e com a troca de recintos, o que sugere que eventos de manejo previsíveis podem ter pesado mais do que a fome, por si só.
A equipa também não observou aumento de agressividade nem instabilidade social em torno das carcaças. O artigo alerta que as observações foram feitas ao nível do grupo, de modo que as câmaras não permitiram identificar como cada leão respondeu individualmente.
Monitorização mais longa revela mais detalhes
“Muitos estudos em zoológicos focam apenas no que acontece imediatamente após a oferta de alimento,” acrescentou a professora associada Alexandra Whittaker.
“Our results show that feeding schedules can influence behavior for days afterwards, making it essential to look at behavioral patterns across the entire feeding cycle rather than a single feeding event.”
Esse ponto é relevante porque as câmaras registaram o comportamento em todas as horas do dia durante três meses.
Observações curtas apenas durante o dia poderiam não captar alimentação noturna, repouso prolongado após refeições grandes e mudanças que só aparecem vários dias depois, já durante o jejum.
O comportamento mudou, mas o bem-estar não foi comprovado
O experimento incluiu apenas três machos adultos no grupo que recebeu carcaças.
Os quatro leões usados para comparação eram diferentes em idade e sexo, e como os grupos já se comportavam de forma distinta na linha de base, os investigadores não os utilizaram para comparações experimentais diretas.
A alteração alimentar também veio acompanhada de mudanças no uso do recinto, o que pode ter influenciado o pacing e a visibilidade para as câmaras.
Além disso, os investigadores pontuaram o comportamento do grupo como um todo, sem identificar cada indivíduo, o que pode ter mascarado diferenças entre leões.
Acima de tudo, o trabalho mediu comportamento, e não indicadores físicos diretamente ligados ao bem-estar.
A oferta de carcaças inteiras alterou quando os leões comeram, descansaram, se movimentaram e exibiram pacing, mas essas mudanças comportamentais, por si, não provam melhoria de bem-estar.
Os resultados indicam que os horários de alimentação podem moldar o comportamento dos leões por vários dias, e não apenas no momento em que a comida é disponibilizada.
Estudos futuros, com mais zoológicos, mais grupos sociais e medidas de saúde física, poderão esclarecer se rotinas semelhantes geram benefícios mais amplos ao bem-estar.
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