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Quando Lisboa tinha dois aeroportos: Tejo, Cabo Ruivo e a Portela

Avião hidroavião ancorado em doca com homem segurando mala observando e avião comercial no fundo.

Durante décadas, discutiu-se qual deveria ser o berço do novo aeroporto de Lisboa. Agora que o futuro da aviação na capital parece, enfim, encaminhado, vale lembrar um detalhe que hoje soa quase inacreditável: houve um tempo em que Lisboa operava com dois aeroportos.

Um deles segue ativo e é o atual Aeroporto Humberto Delgado. O outro praticamente sumiu do mapa - e ficava onde hoje se encontram a Marina do Parque das Nações e o Oceanário de Lisboa.

Foi ali, na Doca dos Olivais, que amerissavam alguns dos maiores hidroaviões do mundo, responsáveis por conexões entre Nova Iorque e outras cidades do outro lado do Atlântico com Lisboa e outros destinos europeus. Sim: o rio Tejo já funcionou como pista.

Quando o Tejo era uma pista: o Aeroporto Marítimo de Cabo Ruivo

Essa história começa ainda nos anos 30, há quase 100 anos. O governo decidiu substituir o Campo Internacional de Aterragem de Alverca por duas novas infraestruturas mais próximas do centro de Lisboa: o Aeroporto Terrestre da Portela (hoje Humberto Delgado) e o Aeroporto Marítimo de Cabo Ruivo.

A Portela receberia os aviões convencionais. Já Cabo Ruivo ficaria dedicado aos grandes hidroaviões que garantiam as ligações transatlânticas. Naquele período, quando as aeronaves terrestres ainda tinham autonomia limitada, a possibilidade de usar rios, lagos e baías como “pistas” tornava os hidroaviões especialmente adequados a viagens de longo curso.

A Pan American World Airways instalou uma base provisória em Cabo Ruivo em 1938. No ano seguinte, em 29 de junho de 1939, um Boeing 314 Clipper finalizou ali uma das primeiras ligações comerciais regulares de passageiros entre os Estados Unidos e a Europa.

Com a abertura do Aeroporto da Portela, em 15 de outubro de 1942, o Estado português ampliou e transformou a estrutura criada pela Pan Am. O Aeroporto Marítimo de Cabo Ruivo foi concluído em 1943, com seis cais de acostagem, molhes, oficinas e rampas que permitiam tirar os hidroaviões da água. Era uma instalação completa, com vocação para funcionar como aeroporto internacional.

Em paralelo, toda a frente ribeirinha passou por reorganização e foi aberta uma nova avenida para conectar os dois aeroportos. Chamava-se Avenida Entre Aeroportos. Hoje ela é conhecida como Avenida de Berlim, nome adotado em 1964.

Era por essa ligação que circulavam passageiros, bagagens, correio e mercadorias. Quem desembarcava de hidroavião seguia de carro até a Portela para continuar a viagem em um avião convencional. No sentido inverso, passageiros vindos de outras cidades europeias eram levados até Cabo Ruivo para atravessar o Atlântico.

Por que existiam dois aeroportos?

A razão estava nos limites da aviação daquele tempo. Os grandes hidroaviões sustentavam as rotas de longo curso, enquanto os aviões terrestres que operavam na Portela faziam os trajetos mais curtos dentro da Europa e para alguns destinos africanos.

O cenário internacional também contribuiu para tornar Lisboa um ponto estratégico. Enquanto a Europa era consumida pela Segunda Guerra Mundial, Portugal manteve-se neutro, e a capital virou um dos poucos pontos de contato entre continentes.

Diplomatas, empresários, artistas, refugiados, integrantes da resistência, espiões e milhares de passageiros passaram pela capital portuguesa numa época em que cruzar o Atlântico ainda dependia, com frequência, dos grandes hidroaviões.

O estuário do Tejo oferecia boas condições para esse tipo de operação, e Cabo Ruivo tornou-se uma escala importante nas ligações entre Europa, África e as Américas.

Foi a tecnologia que decretou o fim

Como costuma acontecer na história da mobilidade, não foi uma decisão política que sentenciou o aeroporto marítimo - e sim o avanço tecnológico.

Ao longo dos anos 50, os aviões terrestres ficaram mais rápidos, mais seguros e mais eficientes. Também passaram a ter autonomia suficiente para cruzar o Atlântico sem depender da água para decolagem ou pouso.

Ao mesmo tempo, os aeroportos terrestres cresceram e receberam pistas mais longas, capazes de atender aeronaves cada vez maiores. Aquilo que antes era a grande vantagem dos hidroaviões virou, rapidamente, uma limitação.

No fim dos anos 50, Cabo Ruivo deixou de receber voos comerciais regulares. O Tejo deixou de ser pista, e Lisboa voltou a operar com apenas um aeroporto.

Hoje, quase nada denuncia que ali existiu uma das mais importantes portas de entrada do país. No lugar onde amerissavam hidroaviões vindos do outro lado do Atlântico, ergue-se o Parque das Nações, com sua marina, jardins, passeios à beira-rio e o Oceanário de Lisboa. Onde antes chegavam hidroaviões vindos de Nova Iorque, agora atracam embarcações de recreio.

Ainda assim, a história não foi totalmente apagada. As antigas rampas da Doca dos Olivais, alguns cais de acostagem e a Avenida de Berlim continuam lembrando que Lisboa já teve dois aeroportos.

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