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Javalis na Ilha de Okunoshima começam a atacar coelhos vivos

Homem alimenta coelho em campo com javali, duas pessoas ao fundo e navio no horizonte.

Javalis selvagens na Ilha de Okunoshima passaram a fazer mais do que revirar restos entre os coelhos que os turistas alimentam. Segundo pesquisadores, uma pequena parte desses animais também começou a atacar coelhos vivos.

Okunoshima é uma ilha pequena no Mar Interior de Seto, na costa de Hiroshima. Seus coelhos soltos transformaram o lugar em um polo turístico: as pessoas chegam de balsa carregando sacos de repolho e ração em pellets.

No mesmo espaço circulam javalis. Hoje, eles comem no meio dos coelhos - e, em alguns casos, acabam comendo os próprios coelhos.

Um livro infantil sobre coelhos levou a uma descoberta

A pesquisa começou por causa de um livro ilustrado infantil chamado Usagi no Shima (Ilha dos Coelhos), de Eri Kondo e Hiroshi Tateno.

Os autores pediram que pesquisadores investigassem de onde, de fato, vieram os coelhos da ilha. Também solicitaram que a equipe avaliasse a saúde de outros animais silvestres presentes ali.

Quem coordenou o trabalho foi Shingo Kaneko, professor da Universidade de Fukushima. Ele não imaginava que ouviria relatos de um javali matando um coelho vivo.

“Quando ouvimos pela primeira vez que um javali havia predado um coelho vivo, ficamos surpresos”, disse Kaneko.

“Os javalis são conhecidos por se alimentarem de carcaças, mas, em geral, não são considerados animais que caçam ativamente presas vivas.”

Kaneko trabalhou com Asami Ogura, da Faculdade de Kure do Instituto Nacional de Tecnologia, e com uma equipe que também incluía pesquisadores da Faculdade de Kobe.

“Ao mesmo tempo, durante o trabalho de campo, chamou nossa atenção o quanto javalis, coelhos e seres humanos interagiam de perto na ilha”, afirmou Kaneko.

“Dentro desse ambiente isolado, parecia que acontecimentos diferentes dos que normalmente observamos em outros lugares estavam ocorrendo por toda a ilha.”

Como os coelhos chegaram à ilha

Os coelhos não são nativos do Japão. Trata-se de coelhos-europeus, a mesma espécie mantida como animal de estimação, levada por pessoas para Okunoshima.

Uma reportagem de jornal de 1972 dizia que oito pares - brancos e malhados em preto e branco - haviam sido soltos na ilha e já tinham se multiplicado para mais de 200 animais.

A ilha ficou praticamente sem moradores depois da Segunda Guerra Mundial, quando deixou de abrigar, em segredo, uma fábrica de armas químicas. Sem gente para contê-los, os coelhos se espalharam por toda a área.

Os coelhos atuais exibem uma variedade de cores de pelagem muito maior do que aquelas dezesseis matrizes iniciais conseguiriam justificar.

Testes genéticos indicam que houve solturas repetidas ao longo dos anos - com maior probabilidade de se tratar do abandono de coelhos de estimação por diferentes pessoas, e não de um único episódio.

A quantidade de coelhos acompanha o volume de turistas

Em Okunoshima, a população de coelhos depende do alimento levado por visitantes, e não do que a ilha consegue produzir naturalmente.

O número de visitantes mais do que dobrou entre 2008 e 2015, com aumento acentuado de turistas estrangeiros.

Em 2013, os turistas levaram cerca de 9 toneladas (8,3 toneladas métricas) de comida para a ilha. O volume subiu para quase 30 toneladas (27 toneladas métricas) por ano em 2017, quando o turismo atingiu o pico.

Somando tudo, isso equivale aproximadamente ao peso de cinco elefantes adultos, apenas em alimento para coelhos.

A quantidade de coelhos cresceu nos anos que antecederam a COVID-19 e depois caiu quando as viagens para a ilha diminuíram.

O pastoreio intenso também removeu os galhos mais baixos de muitas plantas e árvores, deixando uma faixa bem visível. Pesquisadores chamam esse limite de “linha do coelho”, marcando exatamente até onde os animais conseguem alcançar.

Javalis seguiram a comida

Ao contrário dos coelhos, os javalis são nativos de Okunoshima. Pesquisadores os observaram consumindo a ração que turistas deixavam para trás e aproveitando carcaças de coelhos.

Em um número menor de ocasiões, javalis perseguiram coelhos vivos - algo que turistas também relataram ter visto ainda em 2017.

Para Kaneko, é possível que diferentes fatores estejam atuando ao mesmo tempo.

“Comida deixada por turistas pode estar atraindo javalis para as áreas densamente ocupadas por coelhos. Altas densidades de coelhos podem aumentar a disponibilidade de carcaças e também levar a encontros frequentes entre as duas espécies”, disse Kaneko.

Corvos e milhafres-pretos também passaram a participar, remexendo os mesmos restos de alimento e o que sobra de coelhos.

Isso indica que a alimentação feita por turistas pode estar afetando a fauna local além de coelhos e javalis.

O que o estudo ainda não consegue provar

Os pesquisadores fazem questão de frisar que as observações não comprovam que alimentar coelhos por turismo seja a causa direta de javalis caçarem coelhos.

O que eles identificaram foi um padrão: mais comida, mais coelhos e mais contato entre espécies que, de outra forma, raramente se encontrariam na ilha.

Ninguém mediu com que frequência essas tentativas de caça dão certo, nem quantos javalis na ilha já tentaram fazer isso.

O registro atual vem de observações em campo e de relatos anteriores de turistas, e não de uma contagem sistemática ao longo do tempo.

Gestão de uma ilha sustentada por lanches

Os pesquisadores não defendem que as pessoas deixem de visitar Okunoshima ou de alimentar os coelhos.

Em vez disso, propõem gerir melhor a alimentação e a venda de ração, monitorar o tamanho da população de coelhos e a recuperação das plantas, e aprofundar o estudo dos efeitos sobre outros animais.

Para avançar, será preciso articular moradores locais, operadores de turismo, cientistas e órgãos governamentais - todos com interesse em como a ilha é administrada.

Ainda não se sabe se reduzir a comida levada por turistas faria os javalis parar de caçar coelhos. É possível que as duas espécies continuem se encontrando por outros caminhos.

Responder a isso exige observar o que aconteceria caso Okunoshima imponha limites à alimentação - assim como sua população de coelhos já pôde ser acompanhada durante uma pandemia.

O estudo completo foi publicado no Periódico de Ecoturismo.

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