Pular para o conteúdo

Turismo em geleiras e mudança climática: a corrida da última chance

Homem observa geleira com câmera e folheto, outras pessoas ao fundo em deck panorâmico na montanha.

Geleiras estão encolhendo rapidamente em várias regiões do planeta - isso já não surpreende. O que vem mudando é a forma como as pessoas reagem a essa perda.

Em vez de desaparecerem discretamente do imaginário coletivo, muitas geleiras estão recebendo mais visitantes do que nunca: turistas, fotógrafos, excursões escolares, activistas e moradores que levam familiares para rever um lugar que marcou as suas histórias.

Um novo estudo, coassinado pela antropóloga Cymene Howe, da Rice University, investiga esse momento estranho e cheio de camadas em torno das geleiras.

A pesquisa mostra que, hoje, elas funcionam simultaneamente como destinos de “lista de desejos”, fontes de sustento económico e símbolos potentes de luto climático.

Com base em estudos de caso em diferentes países, o trabalho sustenta que as geleiras passaram a ocupar vários papéis ao mesmo tempo - e que isso frequentemente puxa comunidades e tomadores de decisão para direcções opostas.

“À perda global de geleiras é motivo tanto para lamentá-las quanto para celebrá-las. Mas também exige que encaremos o facto de que a mudança climática está matando as nossas geleiras”, disse Howe.

A urgência por trás do turismo em geleiras

O turismo em geleiras existe há muito tempo. O que mudou foi a razão que leva muitas pessoas a viajar até elas.

Com a mudança climática, as geleiras passaram a se parecer com relógios vivos de contagem regressiva - belas, vulneráveis e sumindo diante dos nossos olhos.

Essa sensação de pressa alimenta o que pesquisadores chamam de “turismo de última chance”, quando alguém viaja justamente por acreditar que a geleira não vai permanecer ali por muito mais tempo.

O estudo ressalta que as geleiras mais visitadas do mundo recebem, hoje, mais de 14 milhões de turistas por ano.

É um número impressionante para paisagens que, em geral, ficam longe dos grandes centros, exigem acesso difícil e envolvem riscos físicos. O atractivo não é apenas a vista: é o sentido. Muita gente quer testemunhar, com os próprios olhos, uma mudança ambiental dramática.

E, ao chegar, muitos visitantes não sentem somente admiração. Sentem perda. O artigo descreve como é comum experimentar luto ecológico ao ficar diante de gelo que claramente afinou, recuou ou se fragmentou.

Por que a experiência é tão intensa

Parte do impacto emocional vem do facto de que geleiras não se comportam como paisagens “comuns”. Elas se deslocam, estalam, fazem ruídos. São massas gigantes de transformação lenta, mas visível.

Isso pode fazer com que pareçam mais “vivas” do que uma montanha ou uma costa - mais como uma presença que se pode perder.

“A maioria das pessoas na Terra nunca conseguirá visitar uma geleira, e esse facto se torna mais verdadeiro a cada dia, à medida que elas desaparecem”, disse Howe.

“Mas o desejo existe. Estar perto desses corpos gigantes de gelo é uma experiência poderosa porque são maravilhas naturais únicas que se movem, rangem, sussurram e convidam à reflexão.”

“Para quem vive perto de geleiras, perdê-las marca o fim de formas culturais e de um ambiente construído ao longo de milénios.”

Esse último ponto é decisivo. Para comunidades vizinhas, a perda de uma geleira não é apenas estética. Ela pode sustentar tradições, ritmos sazonais e a identidade local. Além disso, as geleiras alimentam rios e bacias hidrográficas, influenciando agricultura, pesca, geração hidreléctrica e abastecimento de água potável.

Quando uma geleira recua, as condições práticas do dia a dia podem mudar - às vezes de maneira abrupta.

De centros de visitantes a funerais

O artigo descreve como o luto pela perda das geleiras está ficando mais público e também mais organizado. Em alguns lugares, centros de educação e trilhas interpretativas foram ampliados, transformando geleiras em salas de aula para a ciência do clima.

Em outros, comunidades e activistas criaram cerimónias e memoriais para registrar o desaparecimento de uma geleira.

Em certos casos, as geleiras se tornaram pontos de mobilização por mudanças em políticas públicas. Elas oferecem algo que debates climáticos muitas vezes não têm: um símbolo nítido e concreto, difícil de desconsiderar. Uma geleira em retração pode parecer uma prova que se consegue “tocar”.

Howe destaca até onde isso chegou nos últimos anos: “Em 2019, realizamos o primeiro funeral de uma geleira”, afirmou.

“Agora temos uma Lista Global de Baixas de Geleiras que mostra como todas as geleiras do mundo estão ameaçadas e como pessoas em toda parte estão organizando memoriais para as geleiras que amam.”

Essa combinação de educação, activismo e luto é um eixo central do estudo. As geleiras deixaram de ser apenas formas físicas na paisagem: tornaram-se objectos emocionais e políticos - lugares onde se elaboram medo, culpa, assombro e raiva diante da mudança climática.

Como o turismo em geleiras pode dar errado

Aqui a história fica espinhosa. O turismo pode gerar renda e empregos. Mas também pode aumentar emissões, impulsionar a expansão de infra-estrutura, degradar habitats e aprofundar desigualdades - especialmente quando o sector é controlado por operadores de fora, e não por comunidades locais.

O estudo alerta que algumas estratégias de adaptação, pensadas para manter o turismo em geleiras, podem ter efeito contrário.

Soluções técnicas temporárias, como cobrir o gelo com tecidos de protecção, podem preservar o acesso por algum tempo, mas não enfrentam a causa do problema.

Outras medidas, como construir mais infra-estrutura ou ampliar o acesso por helicóptero, podem manter a “experiência turística” ao mesmo tempo que aumentam emissões e perturbações.

“Sempre esperamos que seja possível consertar problemas ambientais com facilidade, mas, na maioria das vezes, isso exige mudanças grandes, infra-estruturais e sistémicas. O turismo em geleiras, ao facilitar o acesso a esses locais majestosos, muitas vezes pode fazer parte do problema da economia fóssil que está acelerando o desaparecimento das geleiras”, disse Howe.

Em outras palavras, ir ver uma geleira derretendo - sobretudo com deslocamentos de alta emissão - pode ficar enredado no mesmo sistema que provoca o derretimento.

O artigo sugere que isso cria uma armadilha moral: as pessoas viajam para testemunhar a mudança climática, mas o próprio arranjo do turismo pode ajudar a intensificá-la.

Quem ganha - e quem não ganha?

Outra fricção destacada pelo estudo é a justiça económica. Em muitas regiões, a receita do turismo em geleiras não permanece no território.

Os lucros podem ir para grandes empresas de turismo, investidores distantes ou operadores nacionais, enquanto as comunidades próximas lidam com as consequências do recuo do gelo.

Essas consequências podem incluir escassez de água, alteração dos fluxos sazonais e perigos naturais, como deslizamentos de terra ou enchentes causadas pelo rompimento de lagos glaciares.

Economias dependentes do turismo também podem ficar instáveis quando a aparência de uma geleira muda drasticamente, o acesso passa a ser inseguro ou a “atração principal” simplesmente desaparece.

Por isso, os autores defendem políticas de turismo em geleiras que não se limitem a maximizar o número de visitantes. Eles propõem abordagens que coloquem as comunidades locais no centro, tratem a justiça ambiental com seriedade e evitem construir uma economia dependente de uma perda contínua.

Turismo em geleiras e ação climática

O estudo não diz que as pessoas nunca deveriam visitar geleiras. A posição é mais realista - e mais desconfortável - do que isso.

Ele reconhece que as geleiras carregam hoje um peso cultural e político enorme e que as pessoas vão continuar a procurá-las. O desafio é administrar essa realidade sem transformar o luto em mais um motor de extração.

Howe lembra que as geleiras não são apenas símbolos: elas participam activamente de ecossistemas e sistemas hídricos.

“As geleiras nos fornecem água e são habitats de criaturas tanto comuns quanto extraordinárias. As histórias que as geleiras nos contam são importantes porque nos ajudam a lembrar que as geleiras do mundo não precisam morrer se conseguirmos encontrar formas melhores de cuidar delas”, explicou.

E essa é a tensão final deixada pelo artigo: testemunhar é importante, mas não basta. Se o turismo em geleiras continuar a existir em um mundo que aquece, ele não pode se resumir a acesso e fotografias.

Ele precisa estar ligado a uma ação climática concreta, para que a “última chance” não vire o modelo de negócio permanente do futuro.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário